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Apoiado pelo Vox, levante fascista na Espanha pede “caça” a muçulmanos e estrangeiros

Na Espanha, grupos de extrema-direita reunidos na cidade de Torre-Pacheco, no sudeste do país, desde 12 de julho, lançam incessantemente mensagens de ódio contra o que denominam “invasão dos mouros” — termo pejorativo usado para se referir aos muçulmanos —, desencadeando e promovendo a violência.

Esse clima de terror não surgiu do nada: é o resultado direto de anos de normalização dos discursos de ódio, de fake news e de mensagens políticas irresponsáveis que apontaram toda uma comunidade como criminosa por sua origem ou religião.

A polícia municipal de Torre Pacheco, localidade murciana que é cenário das agressões xenofóbicas, recomendou aos cidadãos estrangeiros “que não saiam às ruas” por enquanto, até que a situação se estabilize.

A tensão é máxima, sobretudo porque dezenas de militantes da extrema-direita mais violenta, vindos de outras regiões do país, estão na região à espera de retomar sua campanha de “caça ao mouro”, ideia que têm instigado entre os moradores do povoado.

Vídeos publicados nas redes sociais mostraram homens vestidos com símbolos de extrema-direita contra imigrantes com bandeiras marroquinas atirando objetos uns aos outros durante os confrontos em Torre Pacheco. O confronto aconteceu após uma manifestação em que, entre as palavras de ordem, se exigia a expulsão dos “mouros” e até gritos de “Viva Franco!”, o que foi seguido por vários dias de distúrbios de menor intensidade.

Nas redes sociais, onde o discurso xenofóbico se espalha com total impunidade, continuam a circular como pólvora mensagens que convocam à “caça” de muçulmanos e estrangeiros, pedindo sua expulsão do país. A proposta também é defendida pelo partido de extrema-direita Vox, a terceira força política do país, atrás apenas do Partido Popular (PP) e do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE).

O mote da extrema-direita

A origem do estouro de violência foi a suposta agressão a dois idosos por jovens marroquinos, fato que alimentou o ódio entre os moradores e a chegada massiva e coordenada dos grupos de extrema-direitista, incluindo seus influenciadores, que além dos meios de comunicação tradicionais utilizam canais nas redes sociais, especialmente YouTube, TikTok e Telegram.

Em algumas das contas mais populares circulam mensagens como: “Poderiam os acontecimentos de Torre Pacheco ser a faísca para acender uma revolta a nível nacional? Rezo para que assim seja”, ou “Às vezes a história se repete. Há 1314 anos começou algo que deveria se repetir hoje (se referindo à chamada Reconquista, quando muçulmanos foram expulsos do país). E há 533 anos, aconteceu outra coisa que também deveria voltar a ocorrer” (em alusão a 1492, quando os judeus foram expulsos da Espanha e a Reconquista se concluiu com a tomada de Granada).

Outra mensagem diz: “Jamais deveriam ter estado entre nós, entre nossas famílias, entre nossos vizinhos. Mas algum político decidiu importar esses marroquinos para Torre Pacheco. Então vamos sair para defender o nosso povo e expulsá-los.”

Um policial municipal explicou: “Embora não sejamos ninguém para dizer a alguém o que se deve fazer, estamos pedindo aos estrangeiros que vivem aqui que fiquem em casa, que não se exponham. Cada um fará o que quiser, claro. Mas agora, isso é o melhor, ao menos até que a situação se estabilize.”

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Um morador muçulmano de Torre Pacheco, Yassin, de 23 anos, contou em entrevista a uma rádio: “Nada disso faz sentido. Está vindo gente de fora para inflamar o ambiente. Ontem (12/07), por volta das seis da tarde, já havia rostos estranhos passeando pelo povoado e nos insultando. Conhecemos nossos vizinhos — mas aqueles não eram. A violência vem de fora. Não se pode aceitar isso. Precisamos nos sentir seguros, nada mais. E que prendam quem agrediu aquele idoso. Quando os racistas forem embora, o povoado voltará a viver com concórdia e tranquilidade, não tenho dúvida. Aqui, 99% dos estrangeiros só querem ganhar a vida de forma digna e decente.”

A Guarda Civil e a Polícia Nacional reforçaram o esquema de segurança, mobilizando mais 75 agentes, totalizando cerca de 100 responsáveis por garantir a segurança e evitar confrontos no município.

A delegada do governo na região de Múrcia, Mariola Guevara, declarou: “Haverá mais detenções nas próximas horas. Muitas das pessoas que incitaram esta perturbação da ordem pública e cometeram crimes de ódio estão sendo identificadas”.

Até o fechamento desta edição, havia cinco detidos, a maioria por lançamento de objetos. Guevara acrescentou: “Isso foi provocado por organizações antissistema, que fizeram com que pessoas de fora de Torre Pacheco viessem gerar violência. Anunciaram nas redes sociais uma caçada.”

O presidente da região de Múrcia, o conservador Fernando López Miras, também lançou uma mensagem de conciliação, ao afirmar: “Torre Pacheco deve recuperar a normalidade. Conheço seus moradores — é um povoado tranquilo que sempre trabalhou pela convivência, e nada do que está acontecendo os representa. A agressão ao morador de Torre Pacheco não ficará impune, mas nada justifica a violência. Ordem e lei para todos.”

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Ataque a restaurante árabe

Vestidos de preto, com o rosto coberto e armados com facões e paus, um grupo de extrema-direita assaltou violentamente um restaurante de comida árabe de Torre Pacheco, Kebab, durante a madrugada desta segunda-feira (14). Apesar da numerosa presença policial, os atacantes destruíram o local, agrediram o dono e semearam o pânico com total impunidade. A Associação Marroquina para a Integração dos Imigrantes lançou um apelo de socorro diante do “clima de terror” que se espalha contra eles.

A cidade estava praticamente sob um toque de recolher virtual. Nas primeiras horas desta segunda-feira, as ruas eram vigiadas por quase 100 agentes policiais mobilizados, mas isso não impediu que um grupo de extrema-direita com cerca de 30 pessoas atacasse o estabelecimento comercial, que foi destruído. “Queriam nos matar. Ainda bem que tenho uma porta nos fundos e conseguimos escapar por ali”, relatou Hassan, dono do restaurante e de origem marroquina.

“É culpa do Vox e de discursos como os dessa agremiação política, que associam com facilidade e sem razão a imigração irregular à delinquência ou à ameaça aos valores democráticos”, afirma o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska (Imagem: Captura de tela / X)

A associação de migrantes marroquinos advertiu em comunicado que, nos últimos dias, dezenas de moradores e moradoras de origem marroquina foram perseguidos, ameaçados e até agredidos em plena rua, enquanto suas famílias permanecem trancadas em casa por medo.

O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, que foi criticado por ter viajado para assistir a uma partida de tênis em Londres em meio ao conflito xenófobo e racista, afirmou que a situação “é culpa do Vox e de discursos como os dessa agremiação política, que associam com facilidade e sem razão a imigração irregular à delinquência ou à ameaça aos valores democráticos, quando o que realmente coloca esses valores em risco são justamente essas mensagens baseadas nas maiores falsidades”.

O líder do ultradireitista Vox, Santiago Abascal, respondeu: “Não sei se trazemos tensão, mas antes a tensão do que a paz dos cemitérios, antes a tensão do que os espanhóis calados diante da imigração ilegal, diante das violações, dos roubos e dos ataques com facão. Os políticos não podemos deixar a solução nas mãos das pessoas. A solução é política: são as deportações dos ilegais”.

Pedido de demissão Sánchez em meio a caso de corrupção

O presidente do governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, em 9 de julho reconheceu que, após a detenção de seu braço direito, Santos Cerdán, avaliou a possibilidade de renunciar. Porém, concluiu que “atirar a toalha nunca é uma opção” e se reivindicou como um “político limpo” e líder de um “partido exemplar”.

O mandatário espanhol tentou explicar, durante um dos debates mais importantes de seus sete anos de governo, quais foram as razões que propiciaram a trama de corrupção que atualmente está sendo investigada pelos tribunais e que provocou a pior crise de seu mandato.

Sobre o tema, o líder socialista declarou estar “decepcionado” consigo mesmo por ter nomeado os dois ex-secretários de Organização de seu partido, José Luis Ábalos e Santos Cerdán, o último, a quem mencionou nominalmente. Ábalos também foi ministro dos Transportes.

“Me equivoquei ao confiar neles; tenho responsabilidade e a assumo. Pedem que eu renuncie e convoque eleições. A princípio, isso pareceu o mais simples para mim e minha família, mas depois de escutar muitas pessoas, compreendi que atirar a toalha nunca é uma opção. Vou continuar, porque sou um político limpo que desconhecia as irregularidades”, afirmou Sánchez.

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Da mesma forma, declarou que seu governo e o de José Luis Rodríguez Zapatero foram “os mais limpos da democracia”, ao recordar os numerosos casos de corrupção ocorridos durante os mandatos dos ex-presidentes Felipe González (1982-1996), José María Aznar (1996-2004) e Mariano Rajoy (2011-2018).

O mandatário também anunciou um pacote de medidas anticorrupção que inclui, entre outras ações, a realização de controles patrimoniais aleatórios em altos cargos das administrações públicas para evitar que alguém obtenha benefícios indevidos. Além disso, partidos e fundações com financiamento público superior a 50 mil euros serão obrigados a realizar auditorias externas e independentes.

Após o fim de sua intervenção, a bancada do Partido Popular e a extrema-direita do Vox exigiram sua renúncia, o que provocou uma onda de apoio por parte de seus partidos aliados — incluindo o Sumar, seu sócio de governo, e também Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), Junts per Catalunya (JxCat), EH-Bildu, Partido Nacionalista Vasco (PNV), Bloque Nacionalista Galego (BNG), Compromís e Podemos —, os quais, apesar do respaldo, criticaram duramente a forma como Sánchez lidou com a crise.

Entenda o caso de Santos Cerdán

Santos Cerdán, ex-secretário de Organização do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), mão direita e operador político de Sánchez, foi preso no fim de junho. O juiz do Tribunal Supremo do país, Leopoldo Puente, ordenou a detenção sem direito a fiança ao considerá-lo o “líder” da “trama criminosa” que pagava propinas em troca de suculentos contratos de obras públicas, a maioria concedidos por meio do Ministério dos Transportes, quando a pasta era comandada por José Luis Ábalos. Também são investigadas adjudicações feitas por outras administrações públicas, como o governo autônomo de Navarra, da também socialista María Chivite.

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O juiz adotou a decisão em coordenação com a Promotoria Anticorrupção, que, diante do acúmulo de provas documentais, gravações e registros bancários, evidenciou o papel preponderante de Cerdán na suposta trama de corrupção.

O agora acusado foi, até o último dia 12 de junho, secretário de Organização do PSOE, homem da máxima confiança de Sánchez e deputado no Congresso. Agora será processado pelos crimes de organização criminosa, tráfico de influência e corrupção.

Cerdán foi o responsável pelas negociações com os independentistas bascos e catalães — incluindo o ex-presidente Carles Puigdemont, exilado na Bélgica — para garantir apoio parlamentar à investidura de Sánchez. O juiz ordenou sua transferência para o presídio de segurança máxima de Soto del Real.

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Na ordem de prisão incondicional, o magistrado da Segunda Vara afirma que existem “notabilíssimos indícios” contra Cerdán. Explica ainda que Cerdán e Koldo García teriam mantido “uma espécie de trama, vinculada à empresa Servinabar 2000, S.L.U., com o objetivo de obter benefícios econômicos decorrentes da adjudicação de determinadas obras”.

A decisão segue detalhando que, “após a nomeação de José Luis Ábalos Meco como ministro, ele teria indicado Koldo García como assessor em seu ministério, precisamente por sugestão de Santos Cerdán, com o propósito comum de, aproveitando a posição do ministro, direcionar indevidamente determinadas obras públicas licitadas no âmbito de competência do ministério — em particular, na Direção-Geral de Estradas e no ADIF (Administrador de Infraestruturas Ferroviárias)”.

O magistrado descreve o funcionamento da organização criminosa, instaurada no seio do PSOE e do governo, da seguinte forma. “Ábalos, na condição de ministro, exercia, no marco desse repartimento de funções, a influência correspondente ao seu cargo, delegando a gestão concreta das adjudicações a seu assessor, Koldo, que, embora inicialmente não tivesse nenhuma competência nessa área, era quem, no entanto, se interessava pessoalmente, mantendo contato direto e frequente com o diretor-geral de Estradas — Javier Herrero — e com a presidente da ADIF — Isabel Pardo de Vera — para gerenciar diretamente as adjudicações.”

Em sua declaração ao juiz, o ex-líder socialista declarou-se “inocente” e disse ser “vítima de uma perseguição política” por seu papel nas negociações com os independentistas.

Novo acordo fiscal para a Catalunha

O governo espanhol firmou com os representantes da Generalitat da Catalunha a implementação de um modelo de “financiamento singular”, com o qual a região alcançará quase plena autonomia fiscal — uma reivindicação histórica dos partidos independentistas.

O pacto faz parte dos acordos parlamentares entre o Partido Socialista Operário Espanhol e os partidos separatistas catalães, Esquerra Republicana de Catalunya e Junts per Catalunya, que, no entanto, expressaram algumas críticas ao acordo por considerá-lo insuficiente.

O acordo prevê que o governo catalão desenhe a estrutura da Agência Tributária da Catalunha para que possa realizar toda a arrecadação. O primeiro passo será a cessão de 100% do Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas, que até agora era arrecadado pela administração central em quase todo o país, com exceção do País Basco e Navarra.

O pacto bilateral gerou mal-estar no restante das comunidades autônomas, especialmente nas governadas pelo direitista Partido Popular — 13 das 17 —, que afirmam que esse modelo representa uma independência “de fato” para a Catalunha e a ruptura do pacto constitucional de manter uma caixa comum para redistribuição da riqueza.

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