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Apagões programados, resistência criativa: a vida sob cerco energético em Cuba

O que as pessoas comuns veem é a luz. Para elas, é crucial se há ou não eletricidade. É essencial saber se as ruas e suas casas estão iluminadas ou se permanecem às escuras. A eletricidade é a força motriz que move um país. A falta de energia paralisa uma nação.

Essa realidade óbvia torna-se mais do que evidente na Cuba de hoje. E seu povo sabe disso. Por isso, consulta o funcionamento do sistema elétrico nacional como se consulta a previsão do tempo. Quer saber quanto durarão os apagões e a que horas ocorrerão.

Todos os dias, o jornal Granma inclui em seu conteúdo uma seção que informa as previsões sobre a disponibilidade de energia, detalhando impactos e horários, como se fosse um boletim meteorológico.

Os apagões, que provocam múltiplos transtornos à vida cotidiana, anunciam-se como a antessala do caos. Em 3 de fevereiro, a embaixada dos Estados Unidos emitiu um alerta advertindo sobre uma situação crítica de instabilidade elétrica e desabastecimento de combustível que afeta severamente o cotidiano da ilha. O comunicado aponta impactos em serviços como abastecimento de água, iluminação, refrigeração e comunicações, além de alertar seus cidadãos sobre um possível aumento dos protestos contra Washington.

Estrangulamento

Esse estrangulamento obrigou o governo de Cuba a comunicar às companhias aéreas a falta de combustível para abastecer os aviões.

Roberto Fernández, profundo conhecedor e participante das lutas dos trabalhadores do setor elétrico na América Latina, recorda que o célebre revolucionário russo Vladimir I. Lenin resumiu a fórmula do socialismo na consigna: sovietes e eletricidade. E acrescenta: “Está claro que Donald Trump quer retirar da Revolução Cubana uma das duas bases desse modelo.”

A interrupção do serviço elétrico na ilha busca ser apresentada como resultado da desorganização e da ineficiência governamentais, e não como consequência da aposta dos Estados Unidos em estrangular energeticamente Havana.

Segundo o engenheiro elétrico Rubén Campos Olmo, diretor-geral da usina termelétrica da cidade de Matanzas, de 66 anos — já em idade de aposentadoria há algum tempo —, existe um déficit de geração de energia que impede atender à demanda nos momentos mais críticos. Há desconexões programadas para evitar falhas no sistema, cortes elétricos planejados e, além disso, problemas de descoordenação no despacho energético.

E não para por aí: também foi estabelecido um planejamento para atender necessidades estratégicas. Nas palavras do presidente Miguel Díaz-Canel:

Tínhamos a economia parada, as indústrias paradas, as atividades agrícolas paradas, a irrigação interrompida. Estavam paradas as principais fábricas, os principais centros exportadores e os principais centros de produção de bens para a população. E, fazendo uma análise realista das condições do país, dissemos: é preciso destinar parte da energia à economia, sabendo que isso ocorreria às custas de afetar a população. Mas a população também depende do que produzimos na economia; se a economia não produz, a situação se agrava ainda mais, e o impacto dos problemas energéticos torna-se maior na vida das cubanas e dos cubanos.Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba

Como parte dessa priorização, o Ministério da Saúde Pública passou a garantir atendimento prioritário às urgências médicas, aos programas materno-infantis, ao tratamento do câncer e a serviços vitais, como a hemodiálise.

Sem dúvida, o embargo desempenha um papel muito importante nesta crise. Rubén explica:

Na revolução energética que realizamos em 2005, conduzida pelo companheiro Fidel Castro, foram instalados quase 2 mil megawatts de geração distribuída. Chama-se assim porque está espalhada por todo o país. Essa geração consome diesel e óleo combustível. Hoje temos mais de mil megawatts dessa capacidade disponíveis, mas, por um conjunto de razões, tanto econômicas quanto relacionadas ao bloqueio, é praticamente impossível obter esses combustíveis, que são basicamente importados.Rubén Campos Olmo, engenheiro elétrico

O engenheiro Campos conhece bem o sistema elétrico mexicano. Visitou as usinas da Comissão Federal de Eletricidade (CFE), em Tula e Manzanillo, e possui uma visão muito abrangente da indústria energética de seu país. Segundo ele, sete centrais termelétricas produzem pouco mais de 40% da eletricidade. As usinas de ciclo combinado geram entre 15% e 17%, e a produção proveniente de fontes renováveis, como a energia fotovoltaica, vem crescendo significativamente.

Um pequeno gigante regional

Elmer García é diretor de manutenção da Termelétrica de Matanzas. Para conversar com o La Jornada, vestiu-se orgulhosamente com o uniforme da CFE, presente que recebeu quando esteve no México. Todos os dias, junto à sua equipe, realiza o verdadeiro feito de manter em funcionamento uma enorme usina de 38 anos, que gera entre 280 e 295 megawatts — cerca de 15% a 16% da produção elétrica cubana.

A usina tem um nome heroico: Antonio Guiteras, o revolucionário cubano profundamente anti-imperialista e defensor do socialismo anticapitalista, que morreu com as armas na mão em maio de 1935. Trata-se de uma termelétrica veterana, construída em março de 1988, que literalmente funciona a todo vapor, apesar de a vida útil de uma central desse tipo variar entre 30 e 35 anos.

Com a paciência de um profissional que domina profundamente a história e os desafios do setor, o engenheiro Campos explica, na sala de reuniões da termelétrica, que a Guiteras foi projetada para operar com petróleo leve proveniente do campo socialista, mas que, após o colapso soviético, esse combustível teve de ser substituído pelo petróleo cubano, muito mais pesado e viscoso. Desde 2002 até hoje, foram queimadas cerca de 10,5 milhões de toneladas.

O dirigente vê nos trabalhadores da usina uma peça-chave para o sucesso da empresa:

O capital mais precioso que temos — adverte — são nossos trabalhadores. Somos um coletivo criativo, integrado por técnicos de nível superior, médio e operários, que constantemente apresentam soluções para os problemas que enfrentamos. Ao longo dos anos de operação da usina, perdemos equipamentos importantes que afetam nossa eficiência. Mas, com o apoio da Associação Nacional de Inovadores e Racionalizadores, estamos resolvendo muitos desses problemas. Fabricamos milhares de peças de reposição. As produções realizadas em Cuba representam mais de 30% de substituição efetiva de importações. Os trabalhadores encontram soluções para aquilo que não podemos importar por causa do bloqueio. Isso faz parte do que nosso presidente chamou de resistência criativa.Rubén Campos Olmo, engenheiro elétrico

Yandy Rojas é o secretário-geral da organização sindical. Segundo ele, os trabalhadores que inovam e apresentam soluções para os problemas recebem reconhecimentos morais e incentivos econômicos. Embora — ressalte — o fundamental sejam os estímulos morais. E acrescenta: “Não se pode esquecer que nós, trabalhadores, estamos aqui para resistir à ofensiva dos poderosos.”

Conta ainda o engenheiro Campos que os trabalhadores participam da gestão da empresa. O planejamento é debatido a partir da organização sindical, e não é necessário ocupar um cargo administrativo para participar das decisões. Cada seção sindical realiza uma assembleia mensal, iniciada com o relatório apresentado pela administração. 100% dos trabalhadores são sindicalizados. Mesmo o operário mais simples pode oferecer uma opinião que contribua para a solução de problemas. Trata-se de uma gestão participativa.

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Trump — afirma — foi longe demais. Está claro que, em sua agenda, está provocar danos ao sistema energético. Desrespeitou o direito internacional, impede o acesso a financiamentos e dificulta enormemente a chegada de combustível, criando numerosos problemas.

Mas estamos acostumados a momentos difíceis. Superamos o Período Especial. Agora também vamos superar esta situação, como já fizemos em outras ocasiões.Rubén Campos Olmo, engenheiro elétrico

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