”]Aquele combate entre a imaginação americana E o modelo transatlântico…”José
O Antropoceno foi definido a partir da cultura Noratlântica como a época “em que os humanos e nossas sociedades nos tornamos uma força geofísica global”.[2] Essa era é caracterizada por indicadores como o nível de acidificação dos oceanos, a disponibilidade de água doce, a presença de novos elementos contaminantes (plásticos, compostos químicos, material radioativo, Organismos Geneticamente Modificados), a degradação dos solos, o colapso de ecossistemas, a perda de biodiversidade e a mudança climática.[3]
A isso caberia acrescentar, no plano sociocultural, uma série de expressões no mundo acadêmico. Assim, a filósofa polonesa Ewa Bińczyk adverte que a irrupção do Antropoceno na academia gerou preocupações como o risco de perder o futuro; a irreversibilidade das mudanças em curso; e “a dimensão escatológica do debate”, que atua “como uma advertência e um catalisador da mudança política.”[4] De uma perspectiva mais próxima, o historiador francês Jean-Baptiste Fressoz questiona aqueles que propuseram uma história do Antropoceno segundo a qual
desde 1800, e mais intensamente desde 1945, a humanidade, considerada como um todo indiferenciado, alterou inadvertidamente o sistema terrestre por meio do crescimento demográfico e do desenvolvimento econômico, ambos respaldados por um uso exponencial de combustíveis fósseis. Afortunadamente, no final do século 20, à beira de um desastre global, um pequeno grupo de cientistas do sistema Terra abriu nossos olhos para o perigo. [5]
Desse modo, ao distinguir “entre um passado cego e um presente a caminho da iluminação”, o Antropoceno “bem poderia ser uma das últimas reencarnações do discurso do progresso, que reformula a teleologia da humanidade, tornando-a reflexiva como agente geológico.” No entanto, acrescenta, o problema “com qualquer narrativa profética centrada em uma súbita consciência ecológica é que, ao apagar a reflexividade das sociedades passadas, tende a despolitizar a longa história de destruição ambiental.” E isso, “ao focar em nossa própria reflexividade, tende a naturalizar nossa preocupação ecológica,” ignorando as múltiplas advertências sobre a formação dos problemas que enfrentamos hoje, já desde o final do século 18 e início do 19. A partir daí, nos diz:
Se seria uma projeção modernista caracterizar as sociedades do Antropoceno inicial como “verdes”, seria igualmente indulgente julgar nossas preocupações ambientais atuais e nossas categorias teóricas (ecossistema, biodiversidade, aquecimento global, ciclos biogeoquímicos etc.) como as únicas formas de ser “ambientalmente conscientes”.
Uma visão assim renovada, no entanto, ainda deveria integrar o Antropoceno no período mais amplo da história da nossa espécie, que toma forma e se expande até ser visto como uma nova etapa na história do sistema Terra, com os humanos incluídos. Isso implica uma referência obrigatória à nossa América, se considerarmos o que nos disseram, anos atrás, o peruano Aníbal Quijano e o norte-americano Immanuel Wallerstein, para quem
o moderno sistema mundial nasceu ao longo do século 16. A América — como entidade geossocial — nasceu ao longo do século 16. A criação dessa entidade geossocial, a América, foi o ato constitutivo do moderno sistema mundial. A América não se incorporou a uma economia-mundo capitalista já existente. Uma economia-mundo capitalista não teria ocorrido sem a América. [6]Howard Zinn
No contexto desse mercado mundial, foi estabelecida uma estrutura desigual e combinada de desenvolvimento do capitalismo em escala planetária. Sua primeira forma de organização, desde o século 17, foi a de um sistema colonial, sustentado por uma “economia de rapina” que nos legou uma sequência crescente de degradação de solos e águas, expropriações massivas, colapso de ecossistemas e expansão dos conflitos socioambientais.[7]
Na segunda metade do século 20, aquele sistema colonial foi transformado no sistema internacional — interestatal, na realidade — que conhecemos hoje, com um mercado mundial dolarizado. Isso contribuiu para gerar um conflito em expansão entre a demanda econômica por um crescimento sustentado e a necessidade de sustentabilidade do desenvolvimento humano, a partir da interação entre suas dimensões econômica, social e ambiental. Esse conflito subjaz, por exemplo, aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030 (ONU, 2015), que expressam o máximo alcance da racionalidade possível no moderno sistema mundial em sua fase contemporânea de desenvolvimento histórico, que inclui o desgaste da geocultura liberal que o sustenta.
Dessa deterioração faz parte o fato de que, além dos debates que provoca no interior da geologia, o Antropoceno passou a constituir uma categoria histórica que designa a transição para um novo sistema Terra. Dado que essa transição continuará com ou sem a presença dos humanos, o Antropoceno constitui o âmbito histórico em que a sustentabilidade do desenvolvimento da espécie humana, tanto no biológico quanto no social e cultural, tornou-se o problema que definirá nosso futuro no planeta que habitamos e transformamos.
Isso torna especialmente importante zelar pela universalidade na abordagem dos problemas que nos coloca o Antropoceno. No que diz respeito à discussão desses problemas no mundo Noratlântico, embora a maior parte das ciências naturais do nosso tempo tenda a abordá-los de maneira espontânea, a partir de uma perspectiva dialética, no plano dos fatos naturais, no plano social predomina uma perspectiva própria do positivismo do século 19, que considera o social como uma entidade separada da natureza e em confronto com ela. Assim, o senso comum da geocultura liberal não é capaz de incorporar o fato de que
quando se vê que a intervenção humana na Natureza acelera, muda ou detém a obra desta, e que toda a História é apenas a narração do trabalho de ajuste, e dos combates, entre a Natureza extrahumana e a Natureza humana, parecem pueris essas generalizações pretensiosas, derivadas de leis naturais absolutas, cuja aplicação suporta constantemente a influência de agentes inesperados e relativos. [8]Howard Zinn
De fato, aprender a trabalhar com a natureza, e já não contra ela, não se reduz à mera inovação tecnológica. Pelo contrário, exige passar de uma economia linear a uma espiral; de uma visão ecológica de conservação a uma de ecologia política que vincule a mudança social à mudança ambiental; e de uma cultura do crescimento contínuo a outra da sustentabilidade do desenvolvimento de nossa própria espécie.
Lendo o cubano Martí no final do século 19, assim como o argentino Bergoglio em sua qualidade de Papa Francisco no início do 21, vemos renovar-se a luta entre o molde transatlântico e a imaginação americana – para não falar da do Sul Global – nesta etapa da história dos humanos. Que venha de nós o impulso de enxertar o mundo em nossas repúblicas, sempre que o tronco seja o de nossas repúblicas, e, de passagem, abrir caminho para que os políticos nacionais substituam os políticos exóticos, e que se cale “o pedante vencido”, porque “não há pátria da qual o homem possa ter mais orgulho do que de nossas dolorosas repúblicas americanas.” [9]
Desse livre exercício de nossa própria imaginação vem o entendimento de que, se desejamos um ambiente distinto, deveremos criar sociedades que sejam diferentes por sua capacidade de gerar prosperidade equitativa e democrática, que torne possível a sustentabilidade do desenvolvimento humano. Daí também deverá vir nossa capacidade de identificar a diferença à qual aspiramos, e os meios para construí-la, em diálogo e colaboração com todos os povos do mundo que compartilhamos – e que, de alguma forma, nasceu de nós.
Alto Boquete, Panamá, 2 de maio de 2025
[1] José Martí, “Rafael Pombo”. Colômbia, s.f. Obras Completas. Editorial de Ciencias Sociales, Havana, 1975. “Rafael Pombo”. Colômbia, s.f. VII, 408
[2] Will Steffen, Paul J. Crutzen and John R. McNeill (2007): “The Anthropocene: Are Humans Now Overwhelming the Great Forces of Nature?”Ambio Vol. 36, No. 8, Dezembro de 2007 Royal Swedish Academy of Sciences 2007 615 https://www.researchgate.net/publication/5610815_The_Anthropocene_Are_Humans_Now_Overwhelming_the_Great_Forces_of_Nature
[3] Para ampliar esta perspectiva, por exemplo, https://es.wikipedia.org/wiki/Holoceno nos aproxima da posição do Antropoceno como fase culminante dos últimos 10 mil anos de desenvolvimento da espécie humana, a partir do fim da última era glacial.
[4] Ewa Bińczyk (2019): “The most unique discussion of the 21st century? The debate on the Anthropocene pictured in seven points.” The Anthropocene Review, 2019, Vol. 6 (1-2) 3–18
https://www.researchgate.net/publication/333057976_The_most_unique_discussion_of_the_21st_century_The_debate_on_the_Anthropocene_pictured_in_seven_points
[5] Jean-Baptiste Fressoz (2014) “Perdendo a Terra conscientemente. Seis gramáticas ambientais em torno de 1800”
https://www.academia.edu/19596740/_Loosing_the_earth_knowingly_Six_environmental_grammars_around_1800_in_Hamilton_Gemenne_and_Bonneuil_The_Anthropocene_and_the_global_environmental_crisis_Routledge_2014
[6] Aníbal Quijano, Immanuel Wallerstein: “A Americanidade como conceito, ou a América no moderno sistema mundial”, 1992
[7] Brunhes, Jean (1910): “Facts of Destructive Exploitation: Plant and Animal Devastation, Mineral Exploitation.” Human Geography, an Attempt at a Positive Classification, Principles and Examples. Rand McNally & Company, Chicago Nova York, 1920: 330-410.
[8] Vários artigos: “Série de artigos para La América”. Obras Completas. Editorial de Ciencias Sociales, Havana, 1975. XXIII, 44.
[9] Martí, José “Nossa América”. El Partido Liberal, México, 30 de janeiro de 1891. Ibid, VI, 18.

