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Análise do discurso: Trump transforma Brics em alvo central das ameaças e coloca Venezuela na mira

“O Brasil agora enfrenta grandes tarifas… Sinto dizer: o Brasil vai mal e continuará mal. Só terá sucesso trabalhando conosco. Sem nós, fracassará”.
Donald Trump Jr.

A imprensa brasileira e as redes sociais foram à loucura nesta terça-feira (23) após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fazer uma série de elogios ao líder brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva durante seu longo discurso na 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Na narrativa até agora dominante, parece que Trump se rendeu ao encanto e à malemolência do tri presidente.

De fato, foi curioso o registro totalmente fora do script, improvisado pelo magnata na tribuna:

“Tive até dificuldade em dizer isso, porque, ao entrar aqui, cruzei com o presidente do Brasil. Nos vimos, nos abraçamos. Pensei: ‘Em dois minutos vou subir ao púlpito e falar isso’… Ele me pareceu um homem muito simpático. Ele gostou de mim, eu gostei dele. E só faço negócios com pessoas de quem gosto. Pelo menos por uns 39 segundos, tivemos uma excelente química. Foi um bom sinal”.

O burlesco, no entanto, não deve nos desviar da análise do que realmente foi dito pelo magnata e não houve nada de bom no conteúdo, que se configurou como uma verdadeira peça geopolítica de exibição de capacidade militar e chantagem econômica contra os “inimigos” da “América”, ou seja, contra países e blocos que desafiam a hegemonia estadunidense. Traduzindo: o Brics e — corrigindo uma injustiça histórica, porque também deveria compor o bloco — a Venezuela.

Contra esses inimigos, ele esboça uma constelação de ameaças: operações militares, como a chamada “Midnight Hammer” e a “obliteração” do Irã; promessas tarifárias contra Estados soberanos; e linguagem de extermínio contra atores que questionam o domínio estadunidense, por meio do poder direto (bombas), indireto (tarifas) e retórico (humilhações públicas).

Irã: “Operação Midnight Hammer” e o espetáculo de força

“Três meses atrás, na Operação Midnight Hammer, sete bombardeiros B-2 estadunidenses lançaram quatorze bombas de 30 mil libras cada sobre a principal instalação nuclear do Irã, obliterando tudo. Nenhum outro país na Terra poderia ter feito o que fizemos. Nenhum outro país tem os equipamentos que temos. Nós temos as maiores armas do planeta”.

Contra a República Islâmica do Irã, Trump usa a retórica da guerra. Pouco importa se o fato realmente aconteceu como descrito pelo líder do Make America Great Again (MAGA). Importa compreender a mensagem: ao descrever o ataque, ele transforma a destruição total em prova de soberania.

É a diplomacia do estrondo contra um Estado soberano que ousa avançar em busca de desenvolvimento nuclear — até o momento para fins pacíficos —, autonomia monetária com o Brics e liderança geopolítica.

O estadunidense afirmou, sem provas ou respaldo, que tem uma posição “muito simples” sobre a república islâmica: “o patrocinador número um do terrorismo no mundo jamais poderá ser autorizado a possuir a arma mais perigosa”. Disse ainda que chamou o líder supremo do Irã para fazer uma proposta generosa: “cooperação total em troca da suspensão do programa nuclear”.

Para o Irã, o recado é literal: se desafiar os interesses estadunidenses, terá resposta desproporcional, afinal, “ninguém tem equipamentos como os estadunidenses têm”. Para o Brics, a mensagem é translúcida: qualquer integrante pode ter suas infraestruturas estratégicas destruídas ou sofrer punição fora dos marcos do direito internacional. Para o público interno, Trump quis mostrar força e insinuar que é mais forte do que qualquer outro líder que o país já teve.

Contra a Rússia: tarifas como arma de guerra

Novamente, não importa que a Rússia tenha conseguido se adaptar às tarifas impostas pelos Estados Unidos e reativado parte de sua economia. O foco está na repetida ameaça de punição tarifária a quem não dança conforme o ritmo de Washington.

“Se a Rússia não estiver pronta para um acordo de paz, os Estados Unidos estão totalmente preparados para impor tarifas muito fortes, capazes de encerrar o derramamento de sangue rapidamente… Mas, para isso, os países europeus precisam se juntar a nós.”

Trump se apresenta como pacifista, um negociador capaz de ter parado “sete guerras em sete meses” (puro blefe), mas não conseguiu cessar aquela que ele disse que resolveria em apenas 24 horas, a guerra na Ucrânia.

Em uma mesma rodada, atacou outros dois países do Brics: Índia e China, acusadas de serem “as principais financiadoras dessa guerra, comprando petróleo russo”. Na mesma sequência, apontou o dedo para os países que integram a Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan) e que continuam comprando energia da Rússia: “Descobri isso duas semanas atrás e fiquei furioso”. E perguntou retoricamente: “Pensem bem: estão financiando a guerra contra si mesmos. Quem já ouviu falar de algo assim?”

Caros leitores, se ficaram surpresos como Trump, recomendo a leitura do nosso e-book Muito Além da Ucrânia — os fatores por trás da guerra.

Contra o Brasil: guerra diplomática e encanto

Trump usa as tarifas contra o Brasil como instrumento de guerra política e punição pelo não alinhamento. Esse instrumento deixa de ser uma correção de desequilíbrios comerciais e passa a funcionar como mecanismo de submissão.

O caso brasileiro é grave porque significa a intromissão em assuntos exclusivamente internos. A condenação do líder do governo de ocupação Jair Bolsonaro cumpriu todos os ritos processuais, com ampla defesa, mas agora serve de pretexto para legitimar uma retórica punitiva que Trump normaliza.

“O Brasil agora enfrenta grandes tarifas por seus esforços sem precedentes de interferir nos direitos e liberdades de nossos cidadãos, com censura, repressão, judicialização e perseguição a críticos políticos.”

A menção aos Bolsonaros fica subentendida e permite também interpretar que o tratamento dado ao Brasil decorre da tentativa de regulamentar as chamadas Big Techs (Google, Facebook/Meta etc.) e do uso e desenvolvimento de inteligência artificial.

O império não admite tamanha petulância; por isso, Trump vaticinou: “Como presidente, defenderei sempre a soberania nacional e os direitos dos cidadãos estadunidenses”. O impensável e o que motiva sanções por parte dos EUA é que Lula e o Brasil defendam a soberania nacional e os direitos dos brasileiros.

Venezuela: do bloqueio econômico à retórica de extermínio

O trecho mais ameaçador de Trump ficou reservado à Venezuela, em um discurso que mistura criminalização, narrativa de segurança e ameaça explícita de eliminação.

“Começamos a usar o poder supremo das Forças Armadas dos Estados Unidos para destruir terroristas venezuelanos e redes de tráfico comandadas por Nicolás Maduro… A cada bandido que contrabandeia drogas envenenadas para os Estados Unidos, deixo um aviso: vamos eliminar vocês da face da Terra.”

O mais grave é que Trump construiu toda uma narrativa em torno do suposto Cartel de los Soles, grupo narcotraficante que teria como líder o próprio presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Mais do que palavras vazias, essas afirmações abrem espaço para operações extrajudiciais, ataques unilaterais e intervenções militares disfarçadas de campanhas antidrogas.

Caso se interesse pelo tema, temos uma aula exclusiva para nossos apoiadores no YouTube sobre a Guerra às Drogas no México.

Importante atualizar: o governo estadunidense aumentou recentemente a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro para o equivalente a US$ 50 milhões.

Também convém notar a escolha deliberada do vocabulário: “poder supremo”, “destruir”, “eliminar da face da Terra”. O magnata já usa episódios — como alegadas destruições de embarcações no Caribe — de forma extrajudicial, em águas internacionais ou não, para normalizar a agressão e a violência ao arrepio do direito internacional.

“Não temos escolha. Não podemos permitir que aconteça. Acredito que perdemos 300 mil pessoas no ano passado por drogas — 300 mil — principalmente fentanil e outras substâncias. Cada barco que afundamos carregava drogas suficientes para matar mais de 25 mil estadunidenses. Não vamos deixar isso continuar”.

Se o objetivo realmente fosse defender o povo estadunidense, o governo investiria em políticas públicas de prevenção e de recuperação de usuários no próprio país. Fica, porém, evidente que o objetivo real é aniquilar o projeto bolivariano de paz e justiça social.

China: não ao desenvolvimento verde; sim à guerra suja

“Estamos nos livrando das chamadas energias renováveis — uma piada… patéticas, caras… a energia mais cara já concebida… Governos têm de subsidiar em massa.”

Uma de suas inimigas preferidas, a guerra retórica de Trump contra as políticas de mitigação às mudanças climáticas nada tem a ver com negacionismo climático ou crença na Terra plana. . Trata-se de uma estratégia política articulada: atacar a agenda verde para favorecer a retomada de combustíveis fósseis e desgastar governos que priorizam transição energética.

Trump é bem didático, por sinal: “A maioria [dos equipamentos] é produzida na China… usa carvão, gás e quase tudo, menos vento. Mas adora vender turbinas.” Em seguida, acusa a agenda verde europeia de provocar crise:

“A Europa está em crise por causa da agenda da energia verde. Dou crédito à Alemanha: estava sendo levada a um caminho doente, tanto na imigração quanto na energia, e iria à falência. A nova liderança reverteu o curso, voltou ao carvão e à energia nuclear — hoje segura e viável. Eles reabriram plantas de energia e estão bem. Foi uma decisão correta. O verde total significa falência total.”

Ao tratar da relação Estados Unidos–China, Trump sugere que o crescimento chinês foi financiado pelos EUA:

“Por isso, retirei os Estados Unidos do falso Acordo Climático de Paris, que exigia que pagássemos trilhões enquanto China e Rússia ficavam livres de compromissos sérios até 2030. Era outro golpe contra o nosso país. Liberamos uma produção energética massiva e assinamos ordens executivas históricas para explorar petróleo, gás e carvão. Temos as maiores reservas do mundo, inclusive de carvão limpo, lindo e moderno.”

Em síntese, o discurso de Trump na ONU foi histórico e reforçou sua doutrina de A América Grande de Novo em cima do Sul Global subjugado e silenciado. Por isso, a retórica dirigida ao Brics que, citando Geraldo Vandré: “é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”. Aguardemos.

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