Governo iraniano laico e democrático, tão “desejado” hoje pelo Ocidente, já foi realidade no país, mas liderança “comunista” foi derrubada há 70 anos por ir na contramão dos interesses britânicos
Nos primeiros três dias da ofensiva israeli-estadunidense contra o Irã, as mentiras voaram mais rápido que os mísseis. De fato, a agressão se sustenta em quase um século de mentiras ocidentais contra a nação persa, que começaram quando esta tentou sacudir o jugo colonial britânico. Atualmente, o Irã é um dos países mais demonizados pela propaganda de Washington e seus aliados, que critica os excessos autoritários do regime teocrático, mas omite deliberadamente o papel ocidental no surgimento e na consolidação do governo dos aiatolás.
Políticos, meios de comunicação, acadêmicos e os grupos paraempresariais que se autodenominam representantes da “sociedade civil” asseguram desejar para os iranianos um regime laico, democrático, modernizador e moderado, mas esquecem de mencionar que o Irã já havia dado a si mesmo um governo com todas essas características: o do primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh (1951-1953).
Quando o dirigente tentou nacionalizar a Anglo-Persian Oil Company (antecessora da atual British Petroleum), o império britânico reagiu com um roteiro que os Estados Unidos repetiriam várias vezes ao assumir a liderança do imperialismo mundial: acusou o mandatário de “comunista”, sabotou a economia do país, impediu-o de comercializar seu próprio petróleo e, finalmente, com a ajuda de Washington, depôs Mosaddegh e instalou um governo fantoche encabeçado por um monarca fabricado, o xá Mohammad Reza Pahlevi. Reza mergulhou o Irã em um permanente banho de sangue perpetrado por capangas treinados pela CIA e pelo Mossad. A polícia política do xá, a Savak, torturou e assassinou políticos e simpatizantes da democracia, além de desperdiçar a riqueza petrolífera em uma vida de luxo e excessos exibidos sem pudor diante de um povo pauperizado.
A eliminação de todas as lideranças modernizadoras explica por que, quando o Irã finalmente explodiu contra a opressão, a única instituição capaz de canalizar e coordenar a ira popular foi a hierarquia do xiismo, ramo majoritário do Islã no país. Após a revolução de 1979, o Ocidente instigou Saddam Hussein a invadir seu vizinho, apesar de que, à época, já eram bem conhecidos o caráter despótico do presidente iraquiano e os massacres que ele perpetrava contra sua própria população.
Hussein recebeu cobertura midiática, apoio de inteligência e armamento ilimitado — inclusive armas químicas fornecidas pela Alemanha — durante os oito anos que durou sua fracassada tentativa de subjugar seu vizinho. Ao fim da guerra, um milhão de iranianos haviam morrido e mais de 2 milhões estavam feridos, muitos deles com sequelas devastadoras pela inalação de gás mostarda e sarin.
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Este breve resumo não dá conta de todo o sofrimento causado pelo Ocidente ao povo iraniano, mas basta para evidenciar a hipocrisia de Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Emmanuel Macron, Keir Starmer e Friedrich Merz — assim como da quase totalidade dos meios de comunicação — ao justificarem suas agressões contra o Irã em nome da “legítima defesa”.
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O próprio governo estadunidense desmontou essa grosseira manipulação: inicialmente, a Casa Branca afirmou ter realizado um “ataque preventivo” diante de uma “ameaça iminente” de Teerã, mas depois o secretário de Estado, Marco Rubio, admitiu que: “A ameaça iminente era que sabíamos que, se o Irã fosse atacado por Israel — e acreditávamos que ia ser atacado —, eles viriam imediatamente em cima de nós, e não íamos ficar sentados esperando ser golpeados antes de responder”. Ou seja, Tel Aviv já havia tomado a decisão de atacar, e Washington não dirigiu a operação ofensiva, mas sim a seguiu, conforme argumenta o The New York Times.
Se foi assim, Trump deixou que sua cumplicidade com o sionismo o arrastasse para uma guerra da qual agora não encontra saída — como ficou evidente quando estendeu o prazo do conflito de “dois ou três dias” para “quatro ou cinco semanas” e um vago “vai levar tempo”. O incêndio na embaixada estadunidense em Riad e as revoltas no Bahrein ilustram de forma contundente a velocidade com que o magnata está perdendo o controle de sua mais recente aventura bélica.
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