O ataque dos EUA e de Israel contra o Irã é ilegal e constitui o que o direito internacional define como “crime de agressão”. O governo israelense de Netanyahu o classificou como “ataque preventivo”, e diversos meios de comunicação europeus adotaram o termo em suas manchetes. Não há nada de preventivo em bombardear um país que não estava prestes a atacar, como ressaltaram vários relatores das Nações Unidas e especialistas em direito internacional: “Mudança de regime preventiva é um crime internacional”.
Israel e EUA lançaram sua segunda guerra contra o Irã em oito meses. Com os bombardeios, não buscam apenas uma mudança de regime: pretendem também ampliar sua hegemonia na região, onde apenas o Estado israelense possui armamento nuclear. Como era previsível, o Irã respondeu com ataques contra Israel e contra bases militares e aeroportos em diversos países do Golfo.
Apesar dos pretextos apresentados — semelhantes aos fabricados em 2003 para justificar a invasão ilegal do Iraque —, as causas reais dessa guerra de agressão contra o Irã não têm relação nem com o programa nuclear iraniano nem com supostas reivindicações de liberdade para seu povo.
O argumento de que o Irã poderia vir a fabricar armas nucleares é uma narrativa utilizada por Netanyahu desde 1992. Israel possui armamento nuclear. O Irã, não.
Mais hegemonia
O governo de Israel busca reforçar sua hegemonia regional e avançar em seu projeto colonial. Por meio do genocídio em Gaza, consolidou a ocupação e a anexação ilegal de territórios na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém Leste, nos Altos do Golã sírios e além.
Além disso, o Exército israelense segue presente no sul do Líbano, controla a fronteira de Rafah com o Egito e, em menos de dois anos e meio, bombardeou Iraque, Iêmen, Líbano, Síria, Catar, Palestina e Irã. Com isso, pretende não apenas reforçar o programa sionista de um Estado judeu com maioria judaica — com o qual promoveu, há décadas, o roubo, a expulsão e a segregação dos palestinos —, mas também ampliar seu controle e acesso a recursos naturais e rotas de transporte na região.
Conta, para isso, com o apoio dos Estados Unidos, principal facilitador do genocídio em Gaza. O próprio Donald Trump afirmou, em várias ocasiões, que milionários e doadores de sua campanha, como Sheldon Adelson e sua viúva — fortemente pró-Israel —, foram decisivos em sua política de apoio ao país. Além disso, os governos Trump e Netanyahu compartilham interesses.
Washington concebe Israel como um grande aliado que garante seus interesses na região. E não é o único. A Alemanha, estreita aliada de Tel Aviv, também o vê assim. Nas palavras do chanceler Merz, “Israel está fazendo o trabalho sujo por todos nós”. Ele fez essa declaração em junho de 2025, quando o Exército israelense já havia matado dezenas de milhares de civis em Gaza, entre eles quase 20 mil crianças.
O Irã é responsável por 13,4% do petróleo importado por Pequim — transações realizadas sem o uso do dólar.
A União Europeia também se mantém firme em suas alianças com os EUA e Israel. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, pediu ao Irã que suspendesse seus ataques, evitando mencionar os bombardeios estadunidenses e sionistas. E o E3 — Reino Unido, França e Alemanha — ofereceu-se para colaborar militarmente com Washington e Tel Aviv.
O petróleo
Atualmente, o Irã abriga importantes reservas de gás que compartilha com o Catar na maior jazida do mundo, o South Pars-North Dome. Além disso, integra rotas estratégicas de transporte de minerais críticos da Ásia — incluindo a China — para o Ocidente, detém a terceira maior reserva de petróleo do mundo e controla, junto com Omã, o estreito de Ormuz, passagem-chave para o transporte marítimo global de petróleo e gás natural.
O Irã fornece 13,4% do petróleo importado por Pequim, que Teerã recebe em moeda chinesa ou por meio de investimentos em infraestrutura — ou seja, sem recorrer ao dólar. Os Estados Unidos buscam fortalecer sua moeda nos mercados energéticos e controlar fluxos, preços do petróleo e rotas de transporte, não apenas para ampliar seus ganhos econômicos, mas também para conter a expansão econômica da China.
Nesse contexto se inserem os ataques dos EUA contra embarcações no Caribe e os bombardeios contra a Venezuela. O sequestro de Nicolás Maduro e o crime de agressão contra o país latino-americano no início do ano tiveram diversos objetivos, entre eles o acesso às reservas de petróleo venezuelanas — as maiores do mundo —, algo admitido e reiterado pelo próprio Trump.
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Essa meta vinha acompanhada da ideia de um possível ataque posterior ao Irã, diante do qual o regime iraniano poderia tentar fechar a passagem pelo estreito de Ormuz, decisão confirmada nesta segunda-feira (2). Por essa rota passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. Seu fechamento pode provocar uma alta do preço do petróleo em todo o mundo, razão pela qual interessava a Washington garantir previamente acesso ao petróleo venezuelano.
Conforme já divulgado no portal elDiario.es em janeiro, os bombardeios dos EUA contra Caracas também foram concebidos por Washington como treinamento para um possível ataque posterior contra o Irã, assim como a invasão do Panamá, em 1989, serviu de preparação para o ataque posterior ao Iraque (1991).
Nicolás Maduro foi sequestrado, enquanto o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, foi assassinado, assim como foram Saddam Hussein, no Iraque, em 2006; Muammar Gaddafi, na Líbia, em 2011; e Ahmed Yassin, na Palestina, em 2004. Nenhum desses assassinatos — facilitados pelos EUA ou por Israel — trouxe mais liberdade ou segurança. A violência costuma gerar mais violência.
Os pretextos
Em 2002, Netanyahu pediu aos EUA a invasão ilegal do Iraque, com a mesma estratégia que agora utiliza para justificar o ataque contra o Irã. Diante do Congresso dos Estados Unidos, tentou convencer seus membros de que o regime iraquiano era uma ameaça ao mundo.
Netanyahu não busca apenas a queda do regime iraniano, mas também desviar a atenção mundial de seus crimes de genocídio e provocar o enfraquecimento e a fragmentação do Irã, em um ano de eleições em Israel.
Em 2003, a administração Bush — e os governos britânico e espanhol de Tony Blair e José María Aznar — asseguraram que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Para isso, recorreram a um relatório falso, produzido sob medida, e alimentaram suspeitas, apesar de inspetores da Organização das Nações Unidas (ONU) terem supervisionado, em 1998, a destruição desse tipo de armamento, fornecido nos anos 1980 por Washington. “Não é fácil provar que não existe o que não existe”, diziam alguns inspetores em Bagdá, em 2003, nas semanas que antecederam os bombardeios dos EUA.
Agora, o argumento israelense e estadunidense é que o Irã poderia vir a fabricar armas nucleares. Trata-se de uma narrativa que Netanyahu utiliza há três décadas. Israel possui armamento nuclear. O Irã, não.
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Em 2015, EUA, Reino Unido, Rússia, França, Alemanha, China e a União Europeia chegaram a um acordo com Teerã pelo qual se comprometiam a suspender as sanções caso o Irã eliminasse dois terços de suas centrífugas instaladas, se desfizesse de 98% de seu urânio e permitisse o acesso de inspetores da ONU. Em 2018, Donald Trump rompeu esse pacto, deixando o regime iraniano sem incentivos para interromper o enriquecimento de urânio. Ainda assim, até hoje Teerã não possui armamento nuclear.
De fato, em junho de 2025, na Guerra dos 12 Dias contra o Irã, iniciada por Israel e à qual os EUA se somaram, o governo Trump afirmou que seus bombardeios contra instalações nucleares iranianas haviam eliminado a possibilidade de o Irã reconstruir seu programa nuclear no futuro.
A outra justificativa apresentada, a da liberdade para os iranianos, é pouco crível quando parte de um governo israelense que pratica crimes massivos contra a população palestina e de um país, os EUA, que facilitou esse genocídio tanto na administração atual quanto na anterior.
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Tanto Washington quanto Tel Aviv são responsáveis pela ausência de direitos e liberdades do povo palestino e mantêm excelentes relações com outros regimes da região que reprimem suas populações. Os exemplos do que ocorreu no passado no Iraque, na Líbia e no Afeganistão lembram que povos não são libertados com bombardeios, intervenções militares ou invasões.
O ataque contra o Irã não ocorreu em razão de um impasse ou retrocesso nas negociações, mas em um contexto de avanço das tratativas.
Israel tem um candidato favorito para governar o Irã: Reza Pahlavi, filho do último xá, que também conta com o apoio de alguns políticos de direita europeus e estadunidenses. Pahlavi vive nos EUA desde 1978 e há tempos faz apelos “a um levante nacional” contra o regime de Teerã. Está disposto a ser o homem de Israel no Irã: em 2023, reuniu-se com Netanyahu em Tel Aviv, mantém alianças com seu governo e, no último fim de semana, classificou como “intervenção humanitária” os bombardeios contra seu país.
As negociações
Na última sexta-feira (27), horas antes do início dos ataques ilegais contra o Irã, o ministro das Relações Exteriores de Omã, mediador nas negociações entre EUA e Teerã, afirmou que havia avanços importantes e que um acordo estava “ao alcance, se for concedido à diplomacia o espaço de que necessita”. O ministro declarou que o regime iraniano aceitava inspeções da Organização Internacional de Energia Atômica e que estava disposto a não acumular “nunca mais” material para a construção de armas nucleares.
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De nada adiantou. O ataque contra o Irã não ocorreu por causa de um impasse ou retrocesso nas negociações, mas em um contexto de avanço nas tratativas. Os precedentes históricos, o próprio caso iraquiano, bem como o acúmulo de porta-aviões e de efetivos militares na região já indicavam as reais intenções, em um momento de maior fragilidade militar iraniana, após os ataques israelenses dos últimos dois anos e as sanções econômicas internacionais.
Assim como em 2003, no caso do Iraque, as exigências e as negociações serviram de pretexto para ganhar tempo e tentar convencer a opinião pública com propaganda belicista. Mas, ao contrário de 2003, hoje as pesquisas indicam que a maioria dos estadunidenses não apoia essa operação militar ilegal — talvez porque não tenha esquecido as mentiras e as consequências desastrosas daquela agressão, talvez porque o genocídio em Gaza tenha alterado a percepção de Israel em uma parte significativa da população dos EUA.
Os riscos
Os riscos dessa escalada são enormes. O governo israelense busca não apenas a queda do regime iraniano, mas também desviar a atenção internacional de seus crimes de genocídio e provocar o enfraquecimento e a fragmentação do Irã, em um ano em que haverá eleições em Israel. Cenários de confrontos e caos — como os que ocorreram no Iraque, na Líbia ou na Síria — costumam ser propícios ao desgaste de um país e ao agravamento prolongado dos conflitos, com o risco de se espalharem pela região.
Nesse sentido, o iraniano Hamid Dabashi, professor de Estudos Iranianos na Universidade de Columbia, adverte que, com essa agressão militar, Israel busca provocar tensões internas, uma guerra civil, a divisão do país em enclaves étnicos e a instalação de um governo fantoche subordinado aos seus interesses. Ou seja, um contexto que, de todo modo, lhe facilitaria engolir os territórios palestinos, sírios e libaneses ocupados, e até avançar além. Essa tem sido a estratégia israelense há muito tempo: perpetuar um cenário de violência, porque é na guerra que pode obter o que o direito internacional lhe nega.

