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EUA: uma história cravada por guerras, derrotas e aversão à paz

Desde sua fundação em 1776, os EUA construíram o mais poderoso complexo militar que o mundo já conheceu. Hoje, o arsenal ianque controla 40% das armas do planeta. No entanto, essa potência de fogo nem sempre se traduziu em vitórias inequívocas. 

A imagem da nação estadunidense como um país pacífico é desmentida pelos dados históricos. Nem sempre seus presidentes tiveram a coragem de Trump de declarar que almejavam “a paz pela força”. 700 anos antes da era cristã, o profeta Isaías proclamou uma verdade incontestável, para qual os poderosos quase nunca tiveram olhos para ler e ouvidos para escutar: “A paz só virá como fruto da justiça” (32,17). 

Em seus 250 anos de história, os EUA conheceram menos de 20 anos sem estar envolvidos em guerra. Segundo John Menadue, a poderosa nação do Norte nunca passou uma década sem guerra. O período mais longo sem conflito bélico durou apenas cinco anos, entre 1935 e 1940, devido ao isolacionismo a que foi condenada pela Grande Depressão. 

Nem sempre os EUA saíram vitoriosos das guerras nas quais se envolveram. A derrota mais humilhante foi no Vietnã (1955-1975). Apesar dos intensos bombardeios promovidos pelos ianques e do uso de todos os recursos proibidos pelas convenções internacionais, como napalm, o heroico povo vietnamita alcançou a vitória. Os EUA prantearam a morte de 58 mil soldados. 

Todo o horror provocado pelo governo estadunidense no Vietnã está retratado nos filmes Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola; em duas produções dirigidas por Oliver Stone, Platoon (1986) e Entre o Céu e o Inferno (1993); e Nascido para Matar, de Stanley Kubrick (1987).

Outra derrota foi na guerra ao Iraque (2003-2011). Iniciada sob a mentira oficial de que aquele país produzira armas de destruição em massa, a agressão ianque resultou na derrubada de Saddam Hussein ao custo de lançar o país num caos. As mesmas forças políticas de antes ainda governam o Iraque.

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A charge “Peace” (1905), de J. S. Pughe, expressa a política expansionista dos Estados Unidos no início do século 20. Simboliza o domínio marítimo e militar defendido por Theodore Roosevelt, associado à construção de uma marinha poderosa. Ao mesmo tempo, representa o imperialismo estadunidense e o Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe, que colocava os EUA como guardiões e potência dominante nas Américas.

A derrota mais recente foi no Afeganistão (2001-2021). A agressão estadunidense no intuito de eliminar a organização terrorista Al-Qaeda, que havia derrubado as Torres Gêmeas de Nova York, e expulsar o Talibã do governo resultou, como no Vietnã, na saída caótica dos invasores. O custo da ocupação foi de 2,3 trilhões de dólares! As convicções do povo afegão se mostraram mais resilientes que o poder de fogo dos invasores. 

Agora, Trump adota uma nova estratégia ao atacar a Venezuela e o Irã: evitar a presença de tropas no terreno inimigo e centrar os ataques no uso da sofisticada máquina de guerra digital, conduzidas por IA, como drones e mísseis. E o objetivo não é mais implantar o modelo ocidental de democracia, e sim subjugar o governo local aos interesses da Casa Branca. 

O complexo industrial-militar é dominado por cinco grandes conglomerados — Lockheed Martin, Northrop Grumman, General Dynamics, RTX e Boeing —, que dividem a maior parte dos contratos. Mas um novo grupo de empresas mais inovadoras, como Anduril, Palantir e SpaceX, tem levantado bilhões em investimentos privados para modernizar a indústria, aproveitando-se de novas tecnologias como drones e inteligência artificial.

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Em termos de PIB, o peso do setor é significativo, embora esteja abaixo dos picos da Guerra Fria. Em 2024, os gastos militares dos EUA somaram US$ 997 bilhões (incluindo pensões e gastos correlatos), de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Isso representa cerca de 3% do PIB americano. 

O governo chinês acaba de anunciar aumento de 7% no orçamento militar. A China não ultrapassa 1,7% do PIB na defesa (300 bilhões de dólares), o que permite investir mais em ciência, inovação e tecnologia. Daí o interesse da Casa Branca em obrigar os chineses a se envolverem em conflitos armados. Para efeito de comparação: os EUA gastam mais em defesa do que a soma dos investimentos de China, Rússia e Índia juntos.

A história dos EUA é indissociável da guerra. A excepcionalidade americana, tantas vezes invocada em discursos, foi forjada em conflitos decisivos, desde a expansão para o Oeste até as intervenções no Oriente Médio. Os períodos de paz verdadeira foram meros intervalos na marcha beligerante que moldou o país.

Derrotas como as do Vietnã, Iraque e Afeganistão expuseram os limites do poderio militar. Mostraram que tanques, drones e bilhões de dólares são insuficientes para dobrar resistências nacionalistas, complexidades culturais e a falta de legitimidade local. A dificuldade em “conquistar a paz” após uma vitória militar inicial é uma lição recorrente que Washington reluta em aprender.

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O custo dessas guerras — tanto o preço pago pelos contribuintes, quanto o fardo humano suportado por soldados e civis — alimenta um complexo industrial-militar que, como alertou Eisenhower, exerce influência desmedida sobre a política externa. Numa indústria cujos lucros dependem da perpetuação de conflitos, a perspectiva de paz permanece um ideal distante, de vez em quando apenas um breve parêntese na longa história do inveterado belicismo da nação estadunidense.

O tempo nos dirá como os EUA haverão de se safar do atoleiro que se enfiaram agora ao atacar o Irã.

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