incendio-na-patagonia:-governo-culpa-mapuches,-enquanto-israelenses-sao-flagrados-com-fogo

Incêndio na Patagônia: governo culpa Mapuches, enquanto israelenses são flagrados com fogo

Há pelo menos seis dias arde a província sulista de Chubut, na Patagônia argentina, em um momento em que o governo do presidente Javier Milei decidiu reduzir em 70% o orçamento destinado, entre outros fins, ao combate aos incêndios. O ministro provincial de Segurança e Justiça, Héctor Iturrioz, disse no sábado (10) que o incêndio — de origem intencional — pode se estender a localidades próximas já afetadas anteriormente por situação semelhante, em razão das condições climáticas.

Iturrioz descartou a hipótese de negligência no início do fogo, já que as perícias realizadas em laboratório determinaram o uso de “acelerantes e combustíveis”, estando “suficientemente comprovado que foi intencional”.

O mesmo ocorreu no fim do ano passado, quando os bosques de Epuyén e El Hoyo foram incendiados, zonas consideradas patrimônio da humanidade pelas árvores milenares e pela beleza da paisagem, visitadas por centenas de turistas todos os anos.

Entre os turistas, destacam-se soldados israelenses que, há anos, são enviados por seu país de férias para a região patagônica da Argentina e para o sul do Chile, e já foram denunciados por moradores dessas localidades por terem provocado incêndios, como ocorreu no ano passado em Epuyén e El Hoyo.

Neste momento, circula um vídeo no qual aparecem dois soldados israelenses, em viagem turística, acendendo fogo para supostamente preparar alimentos, em locais onde isso é proibido; também é possível vê-los circulando pela região sem o acompanhamento dos guarda-parques responsáveis pela segurança.

O governador de Chubut, Ignacio Torres, do direitista Proposta Republicana, aliado de Milei e assíduo visitante de Israel, tentou acusar os mapuches pelo incêndio, assim como a ex-ministra da Segurança, classificando-os como “terroristas”, quando são eles os que lutam na defesa do pouco que lhes resta de suas terras ancestrais — uma versão impossível de sustentar, dado o tipo de material utilizado pelos incendiários.

Uma legislação foi criada em 2020 para evitar que o fogo seja usado como estratégia de abertura de novas áreas produtivas, mas uma mudança proposta pelo governo de Milei pode facilitar a exploração imediata desses territórios após a queima. (Foto: Governo de Chubut)

[Nota da edição DSG] Vale apontar que o governo de Javier Milei anunciou que enviará ao Congresso um pacote de reformas que inclui mudanças profundas na legislação agrária e ambiental. Entre as medidas, está a alteração da Lei de Terras para eliminar os limites à compra de propriedades rurais por estrangeiros, hoje restrita a mil hectares, facilitando a entrada de capital privado internacional. Além disso, o Executivo pretende rever a Lei de Manejo do Fogo, revogando as alterações aprovadas em 2020 que hoje impedem o aproveitamento econômico de áreas desmatadas ou queimadas por até 30 ou 60 anos após incêndios. A legislação atual foi criada justamente para evitar que o fogo seja usado como estratégia de abertura de novas áreas produtivas, enquanto a mudança proposta pelo governo pode facilitar a exploração imediata desses territórios após a queima.

Aproximação com Venezuela e golpe contra Nicarágua

No sábado (10), Milei anunciou, por meio da chancelaria, a retomada das relações diplomáticas com a Venezuela, rompidas no ano passado, motivo pelo qual o Brasil representava esse país em Caracas.

Por outro lado, a pedido do oficialismo, o juiz Ariel Lijo determinou, no último dia 30 de dezembro, a tomada de depoimento, a abertura de indagação e a captura internacional dos copresidentes da Nicarágua, Daniel Ortega e Rosario Murillo — sua esposa — por sua suposta responsabilidade em crimes contra a humanidade, assassinatos, desaparecimentos forçados, torturas, perseguição política e deslocamentos forçados, no âmbito de uma ação apresentada na Argentina com base no princípio da jurisdição universal.

Enquanto isso, Milei tenta se tornar o maior aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e obedecer cegamente aos ditames de sua nova doutrina de segurança, em um momento em que há grande quantidade de navios e tropas estrangeiras manobrando no Atlântico Sul e na Patagônia, ao mesmo tempo em que avança a presença militar estadunidense na Antártida e na Terra do Fogo.

Ao mesmo tempo, na base naval britânica de Mount Pleasant, na Ilha Soledad, no arquipélago das Malvinas, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ameaça toda a América do Sul. Milei apenas defende em palavras o direito da Argentina de recuperar as ilhas Malvinas, mas, na prática, já negociou — e continua negociando — com o governo britânico, ocupante colonial das ilhas desde 1833.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *