Para o pesquisador equatoriano Luis Córdova, a ação conjunta anunciada em 17 de dezembro “responde a uma estratégia mais ampla” dos EUA e é pouco efetiva no combate à violência
Há vários dias já circulavam denúncias sobre o sobrevoo de aeronaves estadunidenses na costa pacífica do Equador, em redes sociais e em grupos de cidadãos da cidade de Manta. A informação foi confirmada na última quarta-feira (17), após um comunicado da embaixada dos Estados Unidos em Quito. No texto, a representação diplomática deu as boas-vindas “ao pessoal da Força Aérea dos Estados Unidos para uma operação temporária com a Força Aérea do Equador em Manta”. “Esse esforço conjunto de curto prazo é realizado como parte de nossa estratégia bilateral de segurança de longo prazo, em consonância com os acordos atualmente vigentes conforme a lei equatoriana”, declarou a embaixada.
Esses acordos de cooperação militar foram assinados em 2023, durante o governo de Guillermo Lasso, e revalidados em 2024, já sob a presidência de Daniel Noboa. Entre as ações previstas, estão operações conjuntas entre as partes e o uso do território nacional equatoriano. Segundo a oposição política a Noboa, justamente a existência dessa cláusula dispensaria questionar a população sobre o estabelecimento de bases militares dos EUA na nação sul-americana — pergunta inclusa na Consulta Popular realizada em 16 de novembro e rejeitada por 60,82% do povo equatoriano.
O comunicado da embaixada em 17 de dezembro afirma ainda que “a operação melhorará a capacidade das forças militares equatorianas para combater os narco-terroristas, incluindo o fortalecimento da coleta de informações e das capacidades de combate ao narcotráfico”. De acordo com o texto, a iniciativa “foi concebida para proteger os Estados Unidos e o Equador diante das ameaças” compartilhadas pelos dois países. Nenhuma das partes informou o número de militares ou de aeronaves envolvidos nas operações. Tampouco foram detalhadas as ações previstas junto às Forças Armadas do Equador ou se os militares equatorianos atuariam fora do território nacional.
A reação imediata de Daniel Noboa veio por meio de sua conta na rede X. O presidente afirmou: “Com o apoio dos Estados Unidos, ativamos uma operação temporária junto à Força Aérea do Equador em Manta, como parte de uma estratégia bilateral de segurança de longo prazo. Essa operação permitirá identificar e desarticular as rotas do narcotráfico e submeter aqueles que acreditaram que poderiam se apoderar do país.”
Na última terça-feira (16), Noboa se reuniu com militares equatorianos em uma cerimônia de entrega de equipamentos. Na ocasião, reiterou que “protege, cuida e apoia as Forças Armadas como um presidente que apoia a cidadania e o progresso do país”. Segundo comunicado do Ministério da Defesa, o mandatário se comprometeu a investir US$ 9,4 milhões. Também foram entregues 54 caminhonetes, 24 motocicletas, seis drones para vigilância, 25.103 uniformes e botas, além de 350 paraquedas.
Reafirmação da hegemonia
A “operação temporária” em Manta, vale apontar, ocorre após o Peru ter autorizado o uso de seu território por forças militares estadunidenses e depois de o Paraguai ter firmado um acordo de colaboração militar com o governo de Donald Trump.

Manta, principal porto pesqueiro do Equador e enclave estratégico para o comércio exterior, já havia abrigado por uma década uma base militar dos Estados Unidos. A instalação foi fechada em 2009, após a decisão do então presidente Rafael Correa de não renovar o acordo de cooperação na região.
Para o professor universitário e pesquisador Luis Córdova, o recente deslocamento de pessoal da Força Aérea dos Estados Unidos em Manta “responde a uma estratégia mais ampla de Washington para reafirmar sua hegemonia regional por meio da diplomacia militar”. Na avaliação do acadêmico, essa cooperação tem capacidade limitada para enfrentar a grave crise de insegurança vivida pelo Equador, país que atualmente figura entre os seis mais perigosos do mundo.
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