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Controlar o narcotráfico: outro possível objetivo da ofensiva dos EUA na América Latina

Ao longo das últimas décadas, os EUA trabalharam repetidas vezes com governos que utilizavam discursos de mão dura contra o crime para, na prática, ocultar seus crimes

Na última quarta-feira (10), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a captura, nas proximidades da costa da Venezuela, do “maior petroleiro já confiscado”, embora, conforme habitual em seu governo, não tenha identificado a embarcação e nem especificado o local da interceptação. A medida ocorreu em meio à massiva concentração militar estadunidense na região, que inclui um porta-aviões, aeronaves de combate, navios de desembarque e dezenas de milhares de tropas. O magnata também ameaçou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmando que ele “poderia ser o próximo”, em referência a uma eventual investida de Washington após a deposição, por meio da força militar, do governo da Venezuela.

O ataque contra a principal fonte de receitas do Estado venezuelano mostra que o aparato bélico estadunidense em torno da nação caribenha não tem — e nunca teve — a intenção de combater o narcotráfico, mas sim de consumar o anseio compartilhado pelos últimos cinco inquilinos da Casa Branca: expulsar o chavismo do poder e instalar em Caracas um regime títere que entregue às corporações ocidentais o controle das maiores reservas petrolíferas do planeta.

Essa ânsia por hidrocarbonetos, que deveria ter sido mitigada à medida que o mundo transita para fontes de energia renováveis e de baixas emissões de gases de efeito estufa, voltou ao primeiro plano com o trumpismo e sua determinação de extrair e queimar o máximo possível de petróleo. Em julho desse ano, por exemplo, a administração republicana eliminou uma norma que limitava as emissões poluentes de automóveis e usinas energéticas e, no início de dezembro, flexibilizou os limites de consumo de combustível dos veículos. Estima-se que esta última medida provoque um aumento no uso de gasolina e diesel de cerca de 380 bilhões de litros até 2050, bem como uma elevação de 5% na produção de dióxido de carbono.

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De forma complementar, cabe indagar se os embates contra Caracas e Bogotá fazem parte de um plano de Washington para se apoderar das rotas existentes de tráfico de cocaína e abrir novas, por exemplo, por meio da Venezuela, por onde atualmente não passam sequer 5% da cocaína produzida em seu vizinho ocidental. Nesse sentido, deve-se lembrar que a Casa Branca e suas agências de inteligência trabalharam repetidas vezes com governos que utilizam um discurso de mão dura contra o crime para ocultar seu caráter criminoso, como ocorreu com o calderonismo no México e o narcoparamilitarismo de Álvaro Uribe na Colômbia. No primeiro caso, os próprios estadunidenses reconheceram que seu homem forte no país, Genaro García Luna, foi um dos principais dirigentes do narcotráfico enquanto chefiava as instâncias encarregadas de combatê-lo. A perspectiva de que Uribe volte a governar a Colômbia por meio de testas de ferro após as eleições do próximo ano certamente incentiva Washington a fechar o cerco em torno da Venezuela, a última peça que lhe faltaria para obter controle total sobre o lucrativo negócio dos entorpecentes na América Central e do Sul.

Ao mesmo tempo, os níveis de agressão à soberania da América Latina e do Caribe refletem a confiança do trumpismo em sua capacidade de perpetrar qualquer atrocidade com total impunidade, impressão confirmada pela ausência de consequências diante do genocídio que, há dois anos, vem sendo executado em conluio com Israel contra o povo palestino. A presença de governos de direita e de extrema-direita alinhados a Washington em Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, Panamá, Peru, República Dominicana, El Salvador e Trinidad e Tobago, somada à chegada ao poder de um grupo político abertamente pinochetista no Chile e à ameaça do uribismo na Colômbia, é outro fator que encoraja o trumpismo, ao demonstrar que a região se encontra dividida e sem qualquer possibilidade de resistir ao ingerencismo, seja ele exercido por meio de sanções ilegais, de atos de pirataria — como o cometido na semana passada contra o petroleiro — ou de bombardeios e massacres.

Nem de Trump nem de seus aliados se pode esperar respeito à legalidade internacional. Por isso, o México e as poucas democracias que ainda se mantêm de pé no âmbito latino-americano devem se preparar para tempos sombrios, cuja antecipação são as constantes agressões diplomáticas que a nação mexicana vem sofrendo por parte de regimes de facto e autoritários da região andina.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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