Entre as colunas formadas por milhares de hondurenhos que caminhavam pelas intermináveis estradas do México, lado a lado com outros milhares de migrantes salvadorenhos e guatemaltecos – literalmente desde o rio Suchiate, em Chiapas, até a garita de El Chaparral, em Tijuana, trajeto percorrido pelas históricas caravanas de 2018 e 2019 –, de tempos em tempos se erguia uma consigna que só para os catrachos tinha sentido. E eles eram maioria na gigantesca coluna do êxodo humano.
JOH é a sigla do nome do ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández. Até 3 de dezembro, esteve preso em um presídio de Hazelton, Virgínia, extraditado por acusações de narcotráfico apenas semanas após deixar a presidência, em 2022, e ser declarado culpado. Foi indultado por Donald Trump, apesar de um tribunal de Nova York, a Agência de Repressão às Drogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês) e o Departamento de Justiça dos EUA terem comprovado, em 2024, sua responsabilidade no envio de 400 toneladas de cocaína aos Estados Unidos (passando por território mexicano). Hoje está livre.
Sua força política é o direitista Partido Nacional, que agora lança Nasry Asfura — em empate técnico com seu rival Salvador Nasralla, do Partido Liberal — na disputa pela presidência.
Em 2018, os setores populares de Honduras repudiavam JOH porque ele havia tornado seu país inabitável para os pobres, à mercê de grupos criminosos que invadiram todos os cantos e impuseram sua lei, convertendo-o em uma das nações com maior número de assassinatos violentos do mundo.
Cerca de um milhão de hondurenhos havia emigrado até 2020, quase 10% da população. As remessas enviadas por esses migrantes constituem 27% do PIB da nação centro-americana. Mais de 30 mil hondurenhos foram deportados dos Estados Unidos nas recentes batidas do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês).
Essa etapa do passado – violenta, marcada por uma oligarquia voraz e cúmplice de narcotraficantes – retorna ao presente hondurenho.
O que os observadores não viram
Em 30 de novembro, um numeroso corpo de observadores internacionais se espalhou pelo território de Honduras para fiscalizar o processo eleitoral. Sua principal exigência, especialmente da Organização dos Estados Americanos (OEA), foi garantir um jogo limpo e livre de intervenções externas.
Concluída a jornada eleitoral, validaram a correção das eleições presidenciais e legislativas, nas quais o projeto progressista de Rixi Moncada, do partido governista Libre, saiu como o grande derrotado.
Todos ignoraram a ação intervencionista mais visível e determinante vivida na eleição hondurenha. Horas antes do início das votações naquele domingo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu três golpes na mesa que mudaram por completo o tabuleiro político de Honduras. Primeiro, expressou — com todo o peso de seu poder — seu apoio a Asfura, cuja legenda, o Partido Nacional, há décadas representa os interesses da oligarquia inamovível e nas pesquisas pré-eleitorais ainda não tinha o caminho livre.
“Temos muita confiança nele… vamos apoiá-lo com todo o potencial para garantir seu sucesso”, escreveu o mandatário estadunidense em sua conta no X. Sobre Rixi Moncada, ex-ministra da Defesa do governo de Xiomara Castro, Trump afirmou que “Fidel Castro é seu ídolo” e completou: “Não posso trabalhar com ela e com os comunistas”. Também declarou que suspenderia toda a cooperação com Honduras caso o oficialismo vencesse.
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A ameaça implícita não podia passar despercebida aos eleitores. Honduras, um dos países mais pobres do continente, depende fortemente da cooperação internacional, especialmente a estadunidense. Usar o dinheiro como a cenoura da carroça sempre pesa mais do que mil discursos políticos.
No mesmo parágrafo daquela publicação trumpista veio o terceiro golpe: a promessa de indultar o ex-presidente Juan Orlando Hernández, correligionário de Tito Asfura, como é conhecido popularmente o prefeito de Tegucigalpa. JOH havia sido sentenciado em 2024 a mais de 45 anos por uma corte de Nova York pelo envio de cocaína aos Estados Unidos, junto a seu irmão Tony, condenado à prisão perpétua. O trabalho de anos da DEA e do Departamento de Justiça para penetrar nas redes do narcotráfico da América Central foi descartado com apenas algumas mensagens presidenciais.
Washington define
Depois dessas mensagens da Casa Branca, Gustavo Irías, diretor-executivo do Centro de Estudo da Democracia (Cespad), afirmou: “O processo eleitoral hondurenho teve uma virada dramática com a ingerência de Trump”.
Para o jornalista hondurenho Óscar Estrada, autor de Tierra de narcos: cómo las mafias se apropiaron de Honduras, o recado “transcende o candidato, estimula um setor do Partido Nacional, encurrala Nasralla e situa o Libre no terreno onde Trump coloca as ameaças transnacionais”.

O descrédito internacional da figura de Hernández é irrelevante para os objetivos de Trump, cuja intenção é “a recuperação simbólica do Partido Nacional como sócio confiável de Washington”, acrescentou Estrada em artigo publicado em seu blog. “Honduras vota, Washington define o tabuleiro”. Só a partir dessa legitimação “seria possível reconstruir publicamente o passado recente sem que o perdão a JOH fosse lido como uma defesa crua de um ex-presidente condenado por narcotráfico”.
Em algumas publicações jornalísticas da América Central, JOH já era chamado de “o Bukele antes de Bukele”, devido aos seus métodos repressivos — durante seu governo, a líder Lenca Berta Cáceres e cinco ativistas Garifuna da costa atlântica foram assassinados, entre centenas de outros —, sua corrupção descarada e, sobretudo, sua amizade-cumplicidade com Trump, que então cumpria seu primeiro mandato.
Desde o início do século 20, com a ascensão de grandes fortunas acumuladas à sombra das plantações de banana subservientes a Washington — daí o termo “república das bananas” —, um sistema político bipartidário de liberais e nacionalistas se alterna e disputa o poder em Honduras. São sempre os mesmos sobrenomes que dominam o jogo, onde a Casa Branca sempre puxa os cordões: os Rosentals, Buesos, Flores Facusés, Canahuatis, Kafies, Corrales Álvareses, Maduros, Ferraris, Atalas, Farajs e Casanovas, entre outros. E Asfura também. É por isso que o candidato de extrema-direita é o favorito do presidente dos Estados Unidos. O impacto de suas duas postagens nas redes sociais será visto na contagem final.
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