Na última terça-feira (2), o governo da Venezuela rechaçou o processo judicial executado em um tribunal dos Estados Unidos que terminou, na segunda-feira (1º), na “venda forçada” da petroleira Citgo, empresa estatal venezuelana sediada no território estadunidense. Caracas denunciou que o fato constitui “um vulgar e bárbaro saque de um ativo venezuelano em território estadunidense mediante um procedimento fraudulento”.
A Citgo é a principal filial da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), uma empresa de refino, transporte e comercialização de petróleo com três grandes refinarias e milhares de estações de serviço, considerada o ativo externo mais valioso da nação bolivariana e propriedade indireta do Estado por meio da PDV Holding e da Citgo Holding.
O processo judicial nos Estados Unidos teve origem em demandas de credores — como a mineradora canadense Crystallex — que reivindicaram indenizações por expropriações na Venezuela.
Após várias rodadas de debate, o juiz de Delaware aprovou uma “venda forçada” das ações para repartir o produto do leilão entre múltiplos credores.
Na denúncia contra a operação, o governo de Caracas declarou que as ações foram facilitadas por venezuelanos que tomaram o controle de fato da empresa quando, durante o primeiro governo de Donald Trump, Washington deixou de reconhecer o governo legítimo do presidente Nicolás Maduro e, no lugar, legitimou Juan Guaidó e seu suposto “governo interino”.
A Venezuela reiterou que não reconhece nem reconhecerá a venda forçada da Citgo e que “seguirá adotando todas as medidas ao seu alcance para garantir que os promotores e executores do saque respondam perante a justiça”.
A vice-presidenta Delcy Rodríguez afirmou que, desde 2019, quando foi tomada, a Citgo gerou aproximadamente entre 4 e 5 bilhões de dólares por ano, de modo que a Venezuela não apenas perde os 12 bilhões de dólares que a companhia vale, como um dividendo acumulado de 24 bilhões de dólares. “O que fizeram com esse dinheiro? Roubaram!”, acusou.
A Assembleia Nacional venezuelana também se posicionou, aprovando por unanimidade um acordo “em repúdio ao espólio da empresa venezuelana Citgo pelo governo estadunidense e por setores da direita fascista nacional”.
Voos com migrantes são mantidos
O Ministério dos Transportes informou que a autoridade aeronáutica da Venezuela recebeu uma solicitação do governo dos Estados Unidos para retomar os voos de repatriação de migrantes. Em resposta, Maduro autorizou, segundo comunicado publicado nas redes sociais, o ingresso no espaço aéreo venezuelano das aeronaves operadas pela empresa Eastern Airlines LLC. Os voos terão como destino o Aeroporto Internacional de Maiquetía, o principal aeródromo do país.
Desde fevereiro, chegaram quase 100 voos com migrantes venezuelanos deportados por Washington.
Quando, no último sábado (29), o presidente estadunidense instou a considerar o espaço aéreo venezuelano como fechado, Caracas respondeu que Washington havia então suspendido unilateralmente os voos de repatriação. Aparentemente, porém, a administração Trump decidiu bloquear o tráfego aéreo da Venezuela em meio às suas ameaças de atacar o território venezuelano, não aplicando a restrição aos voos estadunidenses que a gestão do republicano considera convenientes.
A publicação do anúncio sobre o fechamento do espaço aéreo venezuelano, por parte do regime de Trump, tornou o ambiente na nação sul-americana mais tenso, diante da possibilidade, levantada por parte da opinião pública, de um ataque iminente. No entanto, o governo de Maduro assegurou a normalidade de absolutamente todas as atividades nacionais, incluindo os serviços aéreos.
Maduro: “Não nos derrotaram e jamais nos derrotarão”
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, assegurou nesta segunda-feira, diante de uma mobilização multitudinária em frente ao Palácio de Miraflores, que jamais poderão derrotar o povo venezuelano e que nunca falhará nem perante a memória do comandante Hugo Chávez (1954-2013), nem diante do povo.
As declarações ocorrem no contexto de máxima ameaça por parte do governo de Trump, que afirmou há poucos dias que “em breve” ordenará ataques terrestres contra o que denomina “grupos narcotraficantes”, reiteradamente associados pelo republicano ao governo da Venezuela.
Maduro e Trump tiveram uma conversa telefônica há pouco mais de uma semana, embora seus detalhes não tenham sido divulgados. No entanto, a mídia estadunidense e a Reuters divulgaram que o presidente dos Estados Unidos teria instado o venezuelano a abandonar o cargo. Neste sentido, as declarações do líder bolivariano ganham especial relevância.
“Não nos retiraram, com seu terrorismo psicológico, nem um centímetro do caminho correto por onde devemos seguir sempre. Jamais, seja qual for a circunstância na qual tenhamos que viver, vão nos retirar do caminho de construir a pátria potência que este povo merece. Não poderão nos retirar jamais”, exclamou diante de milhares de militantes do Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV).
Maduro também afirmou que, durante as últimas 22 semanas de assédio estadunidense contra seu país, o povo venezuelano foi posto à prova e hoje está “em um ponto de capacidade defensiva integral” nunca visto antes, e asseverou que a Venezuela não quer a “paz dos escravos”.
O presidente assegurou ainda que os venezuelanos estão prontos para lutar pela pátria e detalhou que, durante as jornadas de alistamento e treinamento voluntário, mais de 6,2 milhões de milicianos e milicianas se alistaram e se prepararam.
Interesses em jogo
Desde a chegada de Trump ao poder, em janeiro passado, as relações entre os Estados Unidos e a Venezuela se deterioraram rapidamente, após um período em que, com a administração de Joe Biden, houve avanços em direção a um mecanismo de diálogo que permitiu a flexibilização de algumas sanções econômicas.
É o caso das licenças concedidas à petroleira estadunidense Chevron, que mantém negócios no país sul-americano há mais de 100 anos e ainda hoje representa capital estadunidense produtivo na Venezuela. Trump suspendeu essa licença, mas posteriormente a substituiu por outra de caráter reservado.
Atualmente, a Chevron produz cerca de 240 mil barris de petróleo por dia na Venezuela, dos quais 111.150 seguem diariamente para os Estados Unidos, segundo dados do Departamento de Energia estadunidense.
Além disso, os investimentos da Chevron no país são estimados em 10 bilhões de dólares, com projetos agendados para ao menos o ano de 2047.
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* Imagens na capa:
– Juan Guaidó e Donald Trump: Casa Branca / Wikimedia Commons
– Citgo: Beyond My Ken / Wikimedia Commons

