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Influencers, Google, ChatGPT: Israel gasta milhões para reverter opinião de evangélicos nos EUA

O governo israelense assinou contratos no valor de milhões de dólares nos últimos meses para reabilitar a imagem de Israel na opinião pública estadunidense, tanto on como offline. Em meio a uma forte queda do apoio da direita conservadora a Israel, seu governo contratou empresas para levar a cabo “campanhas de hasbará [diplomacia pública]”, centradas especialmente em milhões de fiéis cristãos, por meio de redes de bots para amplificar mensagens pró-Israel online e esforços para influenciar tanto os resultados de busca quanto as respostas dadas por serviços populares de inteligência artificial como o ChatGPT.

Entre os especialistas recrutados encontra-se um ex-gerente de campanha de Donald Trump e diversas empresas vinculadas ao Partido Republicano ou às comunidades evangélicas, o que indica que Israel está direcionando esforços maciços a comunidades que durante muito tempo se consideraram pró-Israel. Entre os objetivos das campanhas está a luta contra o antissemitismo, que aumentou à medida que diminuía o apoio a Israel. Essas campanhas indicam uma nova fase na estratégia de diplomacia pública pós-guerra de Israel e uma mudança na forma como utiliza seus agentes, tanto de inteligência artificial quanto influenciadores humanos, na hasbará no exterior.

As empresas estadunidenses que representam governos estrangeiros devem se registrar no Departamento de Justiça dos Estados Unidos conforme a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros. Os documentos apresentados nos últimos dois meses mostram que o governo de Israel — por meio do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério do Turismo e da Agência de Publicidade do Governo (LAPAM) — assinou múltiplos contratos nos Estados Unidos para promover os interesses de Israel.

Os pagamentos são feitos por meio da Havas Media Germany GmbH, uma subsidiária da gigante internacional de publicidade e relações públicas Havas. Na prática, a Havas atua como intermediária, executando contratos com empresas estadunidenses em nome de Israel. Os documentos mostram que, desde 2018, a empresa recebeu pelo menos 100 milhões de dólares para promover campanhas turísticas israelenses nos Estados Unidos; também trabalha com outros países, inclusive vários do Golfo, em projetos similares.

O maior dos contratos da nova hasbará foi assinado em agosto de 2025 com uma empresa chamada Clock Tower X, propriedade de Brad Parscale, que desempenhou um papel de destaque nas campanhas digitais de Trump em 2016 e 2020. O contrato de quatro meses e 6 milhões de dólares, assinado com a Havas Media — em nome do governo israelense —, exige “serviços estratégicos de consultoria, planejamento e comunicações para desenvolver e executar uma ampla campanha estadunidense para combater o antissemitismo”.

Segundo o registro, a companhia de Parscale produzirá “pelo menos 100 peças básicas de conteúdo por mês”, incluindo vídeos, áudios, podcasts, gráficos e textos, e “5.000 versões derivadas mensalmente”, com o objetivo de chegar a 50 milhões de produções por mês.80% do conteúdo será dirigido aos jovens estadunidenses no TikTok, Instagram e YouTube. As mensagens da campanha serão distribuídas por meio da Salem Media Network, um grupo de mídia de cristãos conservadores que possui mais de 200 emissoras de rádio e sites. Parscale foi nomeado este ano para liderar a estratégia da Salem.

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Porcentagem de estadunidenses com uma percepção negativa de Israel.

Geo-localizando evangélicos

Concentrar-se no público cristão teria sido uma surpresa antes da “guerra” em Gaza, já que os cristãos em geral, e particularmente os evangélicos, foram historicamente o grupo mais pró-Israel nos EUA. No entanto, pesquisas do Pew Research Center realizadas entre 2022 e 2025 mostram uma rápida redução no apoio a Israel desde o início da guerra em Gaza, inclusive entre os conservadores. Cerca de 42% dos estadunidenses tinham uma opinião negativa de Israel em 2022; três anos depois, esse número subiu para 53%. O colapso do apoio não se limita aos democratas: metade dos jovens republicanos (com menos de 50 anos) agora tem uma opinião negativa de Israel, cerca de 15 pontos percentuais a mais desde o início da guerra.

Um informe de 2024 do Centro para o Estudo dos Estados Unidos da Universidade de Tel Aviv indica uma tendência similar entre os jovens evangélicos, que são mais críticos em relação a Israel e já não o apoiam automaticamente, diferentemente de seus pais. Para piorar as coisas, após o assassinato do comentarista conservador Charlie Kirk, teorias da conspiração difundidas pelos meios de comunicação de extrema-direita e por redes de desinformação online alegaram que Israel o havia assassinado por suas críticas à guerra em Gaza.

“My moral character is now being called into question… I don’t need lectures on my coverage…”
@MegynKelly and @charliekirk11 push back against some Israel supporters demanding their 100% Israel support.

Watch below, and subscribe:https://t.co/Y12z2uLeBJ pic.twitter.com/bQ2HepsIaf

— The Megyn Kelly Show (@MegynKellyShow) August 6, 2025

Charlie Kirk critica Israel no programa de Megyn Kelly.

O fracasso do aparato de diplomacia pública de Israel — que durante muito tempo desfrutou do apoio governamental direto e indireto e contou com celebridades que com frequência se oferecem voluntariamente para tais projetos — é alarmante. O informe da auditoria do Estado, que será publicado no final deste ano, analisa os erros cometidos em tempo de guerra.

Outra campanha israelense, encomendada pelo Ministério das Relações Exteriores, foi proposta pela Show Faith by Works (Demonstre fé por meio de obras, em tradução livre), propriedade do consultor republicano Chad Schnitger, um operador evangélico vinculado à direita cristã. O orçamento da campanha supera os 3 milhões de dólares, uma décima parte dos quais já foi paga por meio da Havas, embora ainda não tenha sido assinado um contrato final. Os documentos apresentados em setembro descrevem um foco em “igrejas e organizações cristãs no oeste dos Estados Unidos” com o objetivo de contrapor “a diminuição do apoio a Israel entre os cristãos evangélicos” e “criar consciência sobre os vínculos palestinos com o Hamas e o apoio ao terrorismo”.

Segundo os documentos, esses objetivos serão perseguidos por meio de “argumentos baseados na Bíblia que destaquem a importância de Israel e do povo judeu para os cristãos”, ao mesmo tempo em que difundem mensagens de que “os palestinos escolheram o Hamas… assassinam trabalhadores humanitários cristãos… celebraram o massacre de 7 de outubro e abrigaram terroristas… Os palestinos e o Irã compartilham intenções genocidas em relação a Israel”, entre outras.

As apresentações da campanha proposta explicam que as mensagens chegarão ao seu público por meio da “maior campanha de geofencing na história dos EUA”, um projeto para mapear os perímetros físicos de todas as principais igrejas e universidades cristãs na Califórnia, Arizona, Nevada e Colorado durante as horas de culto; identificar os participantes utilizando dados comerciais, rastreá-los e continuar direcionando a eles anúncios relevantes. A audiência estimada para o projeto sugerido é de oito milhões de fiéis e quatro milhões de estudantes cristãos.

Netanyahu se reúne com líderes evangélicos, incluindo John Hagee (de azul) e Mike Huckabee (à sua esquerda), durante sua visita a Washington em agosto. (Foto: Avi Ohayon / Governo de Israel)

Investigações anteriores do Haaretz demonstraram como as empresas de “inteligência publicitária” (Adint) utilizam ferramentas que permitem aos operadores desenhar um polígono digital em um mapa, extrair identificadores de quem estava fisicamente presente e continuar rastreando-os online — uma prática que representa uma grave ameaça à privacidade.

A campanha utilizaria tais ferramentas para identificar, etiquetar e direcionar possíveis públicos cristãos com mensagens do Ministério das Relações Exteriores de Israel. Esta parte do projeto, disse o Ministério das Relações Exteriores, ainda não foi realizada e continua sendo uma proposta, embora a prática em si seja legal e utilizada em campanhas publicitárias digitais. Em uma declaração ao Haaretz, o Ministério disse que as alegações de que Israel estava pagando influenciadores ou utilizando segmentação geográfica eram falsas e constituíam, na verdade, parte das tentativas de desacreditar Israel.

Um rascunho da proposta incluía possíveis participantes famosos, como o ator de “Guardiões da Galáxia” Chris Pratt, Jon Voight (pai de Angelina Jolie), o jogador de futebol americano Tim Tebow e a estrela da NBA Stephen Curry, embora não esteja claro se algum foi contatado. A campanha também inclui uma instalação itinerante chamada “The October 7 Experience”, projetada por “construtores de cenários de Hollywood” com telas de realidade virtual imersivas que permitem aos participantes “experimentar os horrores do ataque do Hamas e o massacre do festival de música Nova”.

Do SEO ao geo

Um elemento central da campanha de Israel é sua tentativa de influenciar os populares chatbots de inteligência artificial. Uma cláusula no contrato da Clock Tower X revela uma “operação de busca e linguagem” projetada não só para promover a campanha no Google e em outros mecanismos de busca, como também para “gerar resultados de enquadramento em conversas GPT e sistemas de diálogo baseados em IA”.

Este pode ser o primeiro caso documentado publicamente de um Estado que tenta manipular um discurso por meio de sistemas de IA generativa como ChatGPT e Claude, influenciando a forma como enquadram temas relacionados a Israel. Isso representa uma mudança da tradicional “otimização de motores de busca” (SEO), voltada a promover sites pró-Israel nos resultados de pesquisa, para o foco em influenciar como os chatbots constroem respostas sobre Israel e Palestina.

Ainda assim, Israel não abandonou as plataformas clássicas: uma dispensa de licitação do governo revelou que o Estado gastou mais de 45 milhões de dólares na segunda metade de 2025 em publicidade online com Google, YouTube, Twitter (X) e Outbrain.

Outra campanha israelense revelada nos arquivos da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros foi firmada com a empresa SKDKnickerbocker, também por meio da Havas, financiada pelo Ministério das Relações Exteriores israelense, por um valor aproximado de 2,5 milhões de shekels. Segundo o contrato, a empresa, considerada próxima ao Partido Democrata, desenvolverá um “programa baseado em bots em vários canais de redes sociais que “inundem a zona” com a mensagem pró-Israel do Ministério das Relações Exteriores”.

A empresa também recrutará até cinco porta-vozes para promover as mensagens israelenses na mídia internacional e nas redes sociais, junto com bots que operarão no TikTok, Instagram, LinkedIn e YouTube. Outra campanha, financiada com 1,2 milhão de dólares e dirigida pela Targeted Communications Global para o Ministério do Turismo, utilizará influenciadores e conteúdo comercial para promover viagens a Israel.

‘Projeto Esther’

Outra campanha de influência foi assinada com a Bridges Partners, uma empresa consultora com sede em Washington, propriedade de Yair Levi e Uri Steinberg, o ex-agregado de turismo israelense na América do Norte. O contrato de US$ 1 milhão foi assinado por meio da Havas, em nome do Ministério das Relações Exteriores e da LACAM – influencers que promovem Israel.

Segundo os documentos apresentados ao Departamento de Justiça dos EUA em setembro, o objetivo da campanha é “promover o intercâmbio cultural entre Estados Unidos e Israel por meio de conteúdo baseado em influenciadores e atividades relacionadas”. Inclui recrutar e administrar de 14 a 18 influenciadores, cada um dos quais publicará de 25 a 30 vezes por mês no Instagram, YouTube, TikTok e X.

O enfoque nos influenciadores ganhou impulso recentemente. Em julho, o Haaretz informou que o Ministério das Relações Exteriores concedeu centenas de milhares de shekels, com isenção de licitação, a uma organização sem fins lucrativos encarregada de levar influenciadores de direita estadunidenses a Israel — o mesmo grupo demográfico que apresenta a maior queda no sentimento pró-Israel. Em agosto, eles chegaram e realizaram um tour, incluindo visitas a assentamentos, em uma viagem descrita pelo ministério como de “valor midiático, diplomático e de diplomacia pública”. Durante sua visita de setembro a Nova York, o primeiro-ministro Netanyahu reuniu-se com influenciadores estadunidenses e os conclamou a pensar nas redes sociais como um campo de batalha.

Encontro de Netanyahu durante sua recente visita a Nova York, em setembro, com influenciadores nas redes sociais. (Foto: Avi Ohayon / GPO)

Os registros mostram que a Bridges Partners já pagou diversas quantias a Nadav Shtrauchler (US$ 15.000) — um consultor de comunicações que anteriormente trabalhou com Netanyahu e com o Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas — e a Pnina Rezidor (US$ 10.000), uma estrategista de marketing digital israelense.

A campanha se intitula “Projeto Esther”. Não está claro se tem relação com o “Projeto Esther” da Heritage Foundation, um plano para abordar o antissemitismo elaborado pelo think tank conservador responsável por polêmicos projetos para remodelar o governo federal sob um segundo mandato de Trump. O “Projeto Esther” se apresenta como uma estratégia nacional para combater o antissemitismo e proteger as comunidades judaicas, mas os críticos — incluindo grupos judaicos e progressistas — afirmaram que seu verdadeiro objetivo era criminalizar o ativismo pró-palestino. Propôs restringir vistos de estudantes e cortar fundos federais de universidades que abrigassem tal atividade, medidas que foram imediatamente implementadas após o retorno de Trump à Casa Branca.

Uma ferramenta central

As campanhas reveladas nos documentos indicam que os primeiros experimentos de Israel com Inteligência Artificial transformaram-se em uma estratégia estruturada de diplomacia pública nos Estados Unidos. Documentos internos obtidos pelo Haaretz mostram que a IA foi definida explicitamente como uma “ferramenta central” no arsenal tecnológico da Voices for Israel (Vozes por Israel, em tradução literal), uma organização sem fins lucrativos apoiada pelo governo (anteriormente conhecida como Concert) e por seu patrocinador, o Ministério de Assuntos da Diáspora e de Combate ao Antissemitismo. A missão da Voices for Israel é realizar “operações de percepção” digitais em massa como parte da luta de Israel contra as “campanhas de deslegitimação” em todo o mundo.

Um documento de tempos de guerra do início do conflito defendia o estabelecimento de uma “Sala de Guerra Tecnológica” equipada com “sistemas de monitoramento, IA, Big Data, capacidades de distribuição e interrupção, ferramentas de ativação e mais”. A estratégia se materializou originalmente sob o “Projeto Max”, também financiado pelo Ministério de Assuntos da Diáspora.

Sob o título “Combater a narrativa de ódio online por meio de influenciadores e inteligência artificial”, o Projeto Max serviu como uma versão inicial das atuais operações de influência. Uma investigação do Haaretz no início deste ano também revelou um esforço apoiado pelo Estado para desenvolver um bot de hasbara baseado em IA que funcionou mal, produzindo conteúdo antissemita e anti-Israel.

As campanhas recentemente expostas sugerem uma estratégia paralela que combina o uso de influenciadores humanos com agentes impulsionados por IA para promover a mensagem de Israel no exterior.

Em resposta a este relatório, o Ministério das Relações Exteriores afirmou: “As alegações sobre um acordo entre o Estado de Israel e a empresa Show Faith sobre geofencing e pagamentos a influenciadores são falsas. Não houve tal acordo para esses serviços”. O ministério acrescentou:

Essas alegações são um exemplo de uma campanha de desinformação ampla, organizada e falsa que tem sido conduzida contra Israel nos últimos dois anos, com o objetivo de minar a legitimidade e o direito do Estado de Israel a existir. Essa propaganda é conduzida, entre outras formas, por meio da disseminação de desinformação e engano deliberado.Ministério das Relações Exteriores de Israel

“Como parte dos intensos esforços de Israel contra essa campanha de desinformação, estão sendo realizadas diversas exposições e exibições físicas e digitais em todo o mundo, apresentando, entre outras coisas, as atrocidades do massacre de 7 de outubro e outros materiais destinados a combater o ‘oceano de desinformação’. Esses são os tipos de atividades que a Show Faith tem realizado até hoje”, concluiu o comunicado.

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