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Mesmo com 60% das mortes provocadas pela direita, Trump aplica macartismo moderno contra oposição

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, instrui seu governo a “investigar, invadir e desmantelar” agrupamentos e suas fontes de financiamento de opositores políticos, a quem acusa de promover violência política e “terrorismo doméstico”. Críticos qualificam a iniciativa como “macartismo moderno”.

Em um memorando presidencial de segurança nacional, Trump define como pontos comuns dos inimigos internos o “antiamericanismo, o anticapitalismo e o anticristianismo; apoio à derrubada do governo dos Estados Unidos; extremismo em migração, raça e gênero; e hostilidade contra os que defendem valores tradicionais estadunidenses sobre família, religião e moralidade”.

O governo Trump identifica grupos que, segundo ele, se escondem atrás do antifascismo, mas que na realidade seriam “terroristas domésticos conduzindo um assalto violento contra instituições democráticas, direitos constitucionais e liberdades fundamentais dos EUA”.

Esquerda é alvo da Casa Branca

O vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, deixou claro na semana passada que o esforço se dedica apenas a opositores de esquerda. “Esta é a primeira vez na história dos Estados Unidos que há um esforço de todo o governo para desmantelar o terrorismo de esquerda”, declara na Casa Branca.

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Questionado por jornalistas se podia citar alguns dos acusados, Trump menciona o financista e filantropo liberal George Soros e o multimilionário Reid Hoffman, entre os que poderiam ser alvos de investigações por apoiar agrupamentos de esquerda.

Trump determina que a iniciativa seja implementada pelas Forças-Tarefas Conjuntas Nacionais sobre Terrorismo (JTTF), que “coordenarão e supervisionarão uma estratégia nacional integral para investigar, processar e interromper entidades e indivíduos que realizem atos de violência política e intimidação destinados a suprimir atividade política legal ou obstruir o império da lei”.

As instruções incluem investigar e processar qualquer entidade suspeita de fomentar ou apoiar violência política e “terrorismo doméstico”, incluindo indivíduos, agrupamentos políticos, organizações não governamentais (ONGs) e fundações.

Violência da direita é ignorada

A definição presidencial de violência política se restringe a atos contra figuras da direita, como o assassinato do organizador político Charlie Kirk, de um executivo de uma seguradora de saúde, os atentados contra um juiz da Suprema Corte e até contra o próprio presidente.

Trump também afirma que “os distúrbios em Los Angeles e Portland refletem um aumento de mais de 1.000% nos ataques contra oficiais de imigração e alfândega desde janeiro de 2025”.

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Não inclui, porém, o assassinato de dois legisladores estaduais do Partido Democrata em Minnesota, o atentado contra a esposa de um deles, a tentativa de incendiar a residência do governador democrata da Pensilvânia, entre outros.

Assim como já fez anteriormente, não menciona o ato de violência política sem precedentes no país: a tentativa de golpe de Estado e o assalto ao Capitólio por seus simpatizantes em 6 de janeiro de 2021.

Dados expõem terrorismo político nos EUA

Uma análise do Instituto Cato, centro de pesquisas libertário-conservador, registra que 3.597 pessoas morreram em ataques politicamente motivados nos EUA entre janeiro de 1975 e 10 de setembro de 2025.

Quase 3 mil dessas mortes ocorreram nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Excluindo o 11-S, o estudo conclui que a direita política foi responsável por 61% das mortes, seguida por 23% de terroristas inspirados por ideologia islâmica e apenas 11% pela esquerda política.

Trump amplia ofensiva contra críticos

Desde o assassinato de Kirk, em 10 de setembro, a Casa Branca intensifica sua ofensiva política contra os opositores, classificando todos – do ex-presidente Joe Biden (2009-2017) e sua vice, Kamala Harris (2021-2025), a ativistas, defensores de direitos civis, intelectuais, artistas, acadêmicos, estudantes e até ex-funcionários – como parte da “esquerda radical”, que, segundo Trump, busca destruir os EUA.

Na última quinta-feira (25), Trump alcançou um de seus objetivos de punir aqueles que o investigaram e a seus aliados, ao obter uma acusação criminal por mentir ao Congresso contra um de seus principais “inimigos”: o ex-diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI) James Comey (2013-2017).

Isso só foi possível depois da demissão de um procurador federal que se recusara a acusar Comey. Outros promotores, assim como agentes do FBI, também foram demitidos nos últimos meses – alguns participaram da investigação e julgamento dos envolvidos no assalto ao Capitólio, enquanto outros estavam à frente de inquéritos criminais contra o presidente.

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Macartismo moderno ecoa legado de McCarthy

Em 20 de setembro, sem esconder suas intenções, Trump escreve em sua rede social uma mensagem pública à procuradora-geral Pam Bondi, exigindo que processe penalmente aqueles que considera seus inimigos políticos, por terem ousado acusá-lo durante sua primeira presidência.

“Estamos vivendo um momento de macartismo moderno, com Trump colocando todo o peso do Departamento de Justiça contra organizações que se manifestam contra a agenda cada vez mais antiamericana de seu governo”, adverte Anthony Rumbero, diretor executivo da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU).

Vale lembrar que um dos mentores de Trump foi Roy Cohn, advogado e braço direito do senador Joe McCarthy durante sua cruzada contra a esquerda nos anos 1950.

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