O governo da Venezuela divulgou neste domingo uma carta assinada pelo presidente Nicolás Maduro e dirigida ao seu homólogo estadunidense, Donald Trump.
No documento, Maduro desmente que autoridades venezuelanas estejam vinculadas ao narcotráfico e afirma que mantém abertos canais para o diálogo por meio do enviado especial da Casa Branca, Richard Grenell.
Questionado sobre se havia recebido a carta, Trump preferiu não responder, mas declarou: “Veremos o que acontece com a Venezuela”.
A vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, publicou a íntegra da carta em suas redes sociais, datada de 6 de setembro, depois de a agência britânica Reuters divulgar trechos do documento.
Rodríguez lembrou que Maduro havia anunciado a existência da correspondência no dia 5 de setembro e que a entrega ocorreu por intermédio de um representante sul-americano.
“Dado que esta carta foi parcialmente filtrada pela imprensa estadunidense, o governo da Venezuela assume a responsabilidade de publicá-la integralmente”, afirmou Rodríguez.
No texto, Maduro declara a Trump que “se abriram muitas polêmicas em torno da relação entre os Estados Unidos e a Venezuela” e que inúmeras notícias falsas circularam nos meios de comunicação.
Sobre as acusações de vínculos seus e de outros oficiais venezuelanos com o narcotráfico, Maduro afirma:
“É a pior das notícias falsas lançadas contra o nosso país para justificar a escalada a um conflito armado que traria um dano catastrófico a todo o continente.”
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Junto com a carta, Maduro enviou documentos com dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e de outras fontes, sustentando que a Venezuela não tem papel relevante nas rotas do tráfico de drogas para os Estados Unidos.
Como evidência, apresentou relatórios internacionais: “87% da droga produzida na Colômbia sai pelos portos do Pacífico; 8% pela Guajira Norte da Colômbia e apenas 5% tenta ser transportada pela Venezuela, sendo toda interceptada e destruída”.
Maduro também reconhece “a importante tarefa que [Trump] realiza para encerrar guerras herdadas em outras regiões do mundo” e reafirma sua disposição ao diálogo:
“Espero que possamos juntos derrotar essas notícias falsas que enchem de ruído uma relação que precisa ser histórica e pacífica.”
A carta veio a público quatro dias após o primeiro ataque militar estadunidense contra uma embarcação supostamente carregada de drogas no Caribe e nove dias antes do segundo episódio semelhante, em 15 de setembro, ambos anunciados por Trump em suas redes sociais.
Dias depois, o ex-presidente relatou um terceiro ataque sem apresentar provas e, em 19 de setembro, publicou um vídeo que mostraria uma quarta ofensiva contra uma lancha em alto-mar.
Na mesma data do segundo ataque, Maduro declarou em coletiva de imprensa que as comunicações com os Estados Unidos estavam “desfeitas”.
O governo venezuelano denuncia que o deslocamento militar estadunidense no mar do Caribe não busca combater o narcotráfico, mas sim ameaçar diretamente a Venezuela, sob a justificativa de supostos vínculos de Maduro e de seu governo com o tráfico de drogas. Nesse contexto, a população venezuelana se prepara há cinco semanas para a defesa nacional diante da possibilidade de agressão externa.
A resposta de Trump
Pouco antes de a Venezuela divulgar a carta completa, um jornalista perguntou a Trump, em frente à Casa Branca, se havia recebido a correspondência mencionada por Maduro.
Trump respondeu: “Não quero dizer”, sem confirmar nem negar a informação, e acrescentou: “Veremos o que acontece com a Venezuela”.
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O episódio reforça a incerteza sobre um possível giro na relação entre os dois países. No vídeo da conversa, observa-se que, apesar de não confirmar verbalmente o recebimento da carta, Trump balança a cabeça em sinal afirmativo quando o repórter faz referência ao documento.
A correspondência, segundo Caracas, foi entregue em 6 de setembro e expressa a disposição de Maduro para mudar o atual status quo.
Essa posição coincide com as declarações recentes de Richard Grenell, que afirmou ainda existir possibilidade de diálogo para resolver o impasse entre Estados Unidos e Venezuela. Como disse Trump, resta aguardar o que acontece.

