Às seis horas da manhã em ponto deste domingo (21) soaram as trombetas nos mais de 300 quartéis militares da Venezuela. As tropas desfilaram com veículos blindados por avenidas e bairros para percorrer os 5.336 circuitos comunais em que o poder popular no território venezuelano está organizado.
O presidente Nicolás Maduro havia convocado uma jornada de treinamento militar para todos os voluntários registrados na Milícia Nacional Bolivariana, diretamente em suas comunidades.
“Estamos fazendo isso porque a pátria se colocou no centro e merece nossa atenção, carinho, afeto e tudo o que possamos fazer para defendê-la, centímetro a centímetro, em união popular, militar e policial”, declarou o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López.
Por sua vez, Diosdado Cabello, ministro do Interior, explicou que se aplica o “Método Tático de Resistência Revolucionária”, que compreende três elementos: a passagem da luta não armada à luta armada, à resistência ativa prolongada e à ofensiva permanente.
“Quando o inimigo, esse que se crê superior e invencível, acreditar que virá à Venezuela fazer a vida impossível aos venezuelanos, nos encontrará unidos e nós vamos aparecer em todos os lados, porque aqui estará o povo, em qualquer esquina, preparado”, exclamou.
O fim de semana passado, os milicianos visitaram os quartéis para uma jornada de treinamento. Esta segunda rodada compreendeu um deslocamento em sentido oposto: efetivos dos quatro componentes da Força Armada Nacional Bolivariana (Exército, Armada, Aviação e Guarda Nacional) visitaram os bairros em todos os estados para continuar o treinamento dos voluntários em manuseio de armas, estratégia militar, defesa pessoal e primeiros socorros.
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Milícia venezuelana pronta para responder
No setor UD-2 de Caricuao, uma das 22 paróquias em que se divide a cidade de Caracas, todos os membros ativos das comunas participaram dos treinamentos.
Katiuska Borrero, dirigente comunitária de 44 anos, disse que esta jornada é a continuação natural do trabalho social e político que realizam permanentemente.
“Sempre estamos organizados, para a produção autônoma, para a distribuição de alimentos para a população, agora nos toca nos organizar para defender a pátria e aqui estamos”. Contou que nunca havia tocado uma arma, mas agora sente que pode defender sua comunidade se existir uma ameaça.
No setor Longaray da paróquia El Valle, em outro ponto do oeste de Caracas, Roger e Claudia Fuentes, de 50 e 48 anos, participaram desde cedo do treinamento.
Comentaram que, como casal, aprenderam a atuar juntos ou separados de maneira tática. “Agora sabemos como manejar um fuzil e também como nos deslocar e usar o conhecimento de nosso território a nosso favor no caso de que uma força inimiga tente nos agredir”, afirmou Roger; sua esposa Claudia acrescentou: “esta é nossa terra e faremos o que for preciso para proteger nossos filhos e a nossa gente”.
Escalada de Trump contra Venezuela restaura “guerra infinita” de Bush pós-Torres Gêmeas
Trump ameaça enviar imigrantes para a Venezuela
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, escreveu em sua rede social Truth Social que a Venezuela deve aceitar “imediatamente a todos os prisioneiros e pessoas de instituições mentais” venezuelanos que estão em território estadunidense, os quais o magnata republicano qualificou como “monstros” e acusou, sem provas, de cometer crimes.
“Queremos que a Venezuela aceite imediatamente a todos os prisioneiros e pessoas de instituições mentais. O que inclui os piores manicômios do mundo, que a liderança venezuelana obrigou a entrar nos Estados Unidos da América. Milhares de pessoas foram gravemente feridas, e até assassinadas por estes monstros”, afirmou.
Desde que Trump assumiu a presidência em janeiro, e apesar das crescentes tensões e ameaças militares, foi mantido um canal de comunicação fluído entre Caracas e Washington para repatriar venezuelanos que foram expulsos.
Até a data, chegaram ao país 70 voos provenientes dos Estados Unidos, alguns com escala no México ou em Honduras, e já foram repatriados mais de 13 mil venezuelanos.

No entanto, Trump ameaçou enviar, caso a Venezuela se negasse a receber seus cidadãos: “Tirem-nos de nosso país agora mesmo, ou o preço que pagarão será incalculável!”.
Até o fechamento desta edição não houve resposta oficial do governo bolivariano às declarações do mandatário estadunidense.
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Maduro escreve a Trump
A agência britânica de notícias Reuters publicou que teve acesso a uma carta enviada pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao seu par estadunidense há duas semanas. Segundo a nota, Maduro pedia a retomada do diálogo que havia se iniciado através do enviado especial da Casa Branca para a Venezuela, Richard Grenell.
Na missiva, datada de 6 de setembro, Maduro convidou Trump a “superar o ruído midiático e as notícias falsas”. O presidente venezuelano também rejeitou no escrito as afirmações dos Estados Unidos de que a Venezuela teria papel importante no narcotráfico, ao assinalar que apenas 5% das drogas produzidas na Colômbia passam pelo território venezuelano, das quais 70% são neutralizadas e destruídas pelas autoridades do país.
