6,7-mil-km,-pagamento-em-rublo-e-yuan:-os-detalhes-do-forca-da-siberia-2,-novo-gasoduto-russia-china

6,7 mil km, pagamento em rublo e yuan: os detalhes do Força da Sibéria 2, novo gasoduto Rússia-China

Em 2 de setembro, os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, constataram em Pequim que sua “aliança estratégica” será cada vez mais estreita, na medida em que o inquilino da Casa Branca, Donald Trump, toma medidas contra seus interesses. A declaração foi feita na China durante o encontro entre os líderes, no qual foram feitos ainda dois anúncios relevantes: a decisão de construir o gasoduto Força da Sibéria 2 e a supressão de vistos para cidadãos russos em estadas de curta duração.

No dia anterior, na cúpula de Tianjin, ambos os mandatários se reuniram com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e os demais governantes dos países membros da Organização de Cooperação de Xangai. Na ocasião, Putin e Xi referendaram sua firme decisão de defender – conforme assinala a Declaração final da reunião – os propósitos e princípios da Carta da Organização das Nações Unidas, assim como de promover a criação de um sistema global mais justo e equitativo, no qual prevaleçam o direito internacional e o multilateralismo.

“Os nexos entre China e Rússia resistiram a uma conjuntura internacional cambiante e são um exemplo de como devem ser as relações entre potências. Caracterizam-se por uma boa vizinhança duradoura, uma coordenação estratégica integral e uma cooperação mutuamente benéfica”, declarou Xi, resumindo a importância da relação bilateral, segundo as agências de notícias internacionais.

Consolidar a cooperação

O presidente chinês disse esperar que os vínculos com a Rússia obtenham “um maior impulso” e que ambos os países “aspirem a integrar melhor seus interesses e a consolidar e desenvolver a cooperação”.

O chefe do Kremlin, por sua vez, após agradecer a calorosa recepção em solo chinês e, em especial, o convite para assistir em 3 de setembro ao desfile que comemorou o 80º aniversário da vitória da China sobre o militarismo japonês na Segunda Guerra Mundial, afirmou que a estreita comunicação que mantém com Xi corresponde ao “caráter estratégico das relações russo-chinesas, que atingiram máximos históricos”.

Putin chegou ao encontro com Xi à frente de uma comitiva oficial de 36 pessoas, entre ministros, diretores de consórcios públicos, banqueiros e magnatas, que participaram como protagonistas ou testemunhas da assinatura de 22 memorandos de intenção e/ou cooperação entre instituições russas e chinesas.

A Diálogos do Sul Global está em todo lugar! Conheça nossas redes.

O gasoduto Força da Sibéria 2

Apesar de, entre os documentos, não ter sido incluso o “memorando juridicamente vinculante para a construção do gasoduto Força da Sibéria 2”, ao fim da cerimônia a iniciativa foi destacada na televisão russa por Aleksei Miller — presidente da Gazprom, a estatal russa de gás — como “um passo importante para fortalecer e desenvolver” a “associação estratégica” entre a Rússia e a China.

É possível que Miller tenha se referido ao “acordo de cooperação estratégica” firmado com a Corporação Nacional de Petróleo da China (CNPC), o qual contempla o aumento, por meio do já existente Força da Sibéria, do fornecimento de gás natural de atuais 38 bilhões para 44 bilhões de m³ por ano. Pela Rota Oriental, o envio vai passar de 10 bilhões para 12 bilhões de m³ por ano. O líder da Gazprom não especificou se isso também inclui um pré-acordo para a construção do gasoduto Força da Sibéria 2 ou se se trata de um documento à parte, ausente na lista publicada pelo Kremlin.

O Força da Sibéria 2, que visa levar gás russo durante 30 anos ao longo de 6.700 quilômetros, desde a Península de Yamal, no círculo polar ártico, até a China, passando pelo território da Mongólia, parecia descartado quando, em dezembro de 2024, o governo de Ulan Bator não o incluiu em seu plano de obras até 2028. Porém, em 2 de setembro, o tema foi retomado na reunião trilateral que Putin e Xi mantiveram em Pequim com seu homólogo mongol, Ukhnaa Khurelshukh.

O projeto começou a ser debatido em 2020, mas não pôde ser concretizado devido a discordâncias sobre o valor do gás a ser pago pela China. (Imagem: Reprodução / Mídias sociais)

Um divisor de águas na parceria entre China e Rússia

Para Miller, a construção do Força da Sibéria 2 será “o maior projeto e com o maior investimento no setor de gás mundial” e permitirá “bombear 50 bilhões de m³ por ano”. 50% dos pagamentos, indicou, serão feitos em rublos e yuans.

Falta definir o principal: quando começará a construção do gasoduto, que estaria pronto para entrar em operação cerca de cinco anos depois. Além disso, será preciso estabelecer o preço do gás.

Durante anos, o projeto, que começou a ser debatido em 2020, não pôde ser concretizado, já que a China pretendia pagar 60 dólares por 1.000 m³, uma quantia quase igual ao custo do gás no mercado interno da Rússia — exigência inaceitável para a Gazprom.

Miller não divulgou qual será o valor para a China, mas afirmou que será definido posteriormente, adiantando que, em qualquer caso, continuará “mais baixo que o pago pela Europa”. “O mercado chinês está mais próximo, os custos logísticos são menores e, consequentemente, o preço objetivamente tem que ser mais barato”, explicou.

Alguns analistas apontam que as pressões da Administração Trump, somadas à incerteza semeada pelo conflito armado entre Israel e Irã, permitiram à China maior autonomia para decidir de quem comprar o gás do qual necessita — sobretudo por bons preços —, enquanto a Rússia poderá recuperar parte do mercado que perdeu na Europa.

Quando o Força da Sibéria 2 começar a operar, a Gazprom poderá alcançar, nos fornecimentos anuais à China, um total de 106 bilhões de m³ de gás, frente aos 170 bilhões de m³ que exportava para a Europa em 2020.

Flexibilidade para vistos

Paralelamente à reunião entre Putin e Xi, a chancelaria chinesa anunciou em 2 de setembro que, sem exigir reciprocidade, os cidadãos russos com passaporte comum poderão visitar o gigante asiático sem necessidade de solicitar visto, por 30 dias e de forma experimental durante um ano, a partir de 15 de setembro.

Em 2024, 1,9 milhão de russos visitaram a China, e esse fluxo de viajantes, no primeiro semestre de 2025, foi 40% superior ao mesmo período do ano anterior.

Cannabrava | Brics responde com multilateralismo ao tarifaço de Trump

Boris Titov, copresidente do comitê de amizade entre Rússia e China, celebrou a notícia e afirmou em sua conta no Telegram que os cidadãos chineses “também têm facilidades similares” para viajar à Rússia e só precisam solicitar o visto eletrônico pela internet.

Não se sabe se a Rússia aplicará o mesmo critério para cidadãos chineses. Em agosto de 2023, entrou em vigor um acordo para a dispensa de vistos em estadas de curta duração para pessoas que viajam em grupo, beneficiando quase 50 mil turistas chineses organizados. Quase 200 mil cidadãos da China visitaram a Rússia em 2023, segundo dados da Associação de Operadoras de Turismo da Rússia.

Rússia em defesa da Venezuela

“A pressão que o Ocidente exerce contra a Venezuela é inadmissível, à medida que a escalada da tensão em torno desse país latino-americano se converte em uma ameaça à segurança regional e global”, afirmou na última quinta-feira (4) a porta-voz da chancelaria da Rússia, Maria Zakharova, em entrevista coletiva.

Segundo Zakharova – que evitou mencionar nominalmente a administração do presidente Donald Trump ou os Estados Unidos, optando por incluí-los no conceito mais amplo de Ocidente – “a forma de agir dos países ocidentais em relação aos Estados que querem aplicar uma política própria é ‘uma página muito especial’ das relações internacionais”, assinalou.

E ressaltou: “Trata-se de um método de comportamento absolutamente inaceitável. Está sendo exercida contra a Venezuela uma pressão aberta em todas as frentes”, principalmente por meio da “pressão das sanções e da distorção do tema dos direitos humanos”.

A diplomata acrescentou: “Se falarmos de manipulação política, vejam quantas vezes a Venezuela realizou eleições democráticas e quantas vezes essas eleições não foram reconhecidas pelo Ocidente. E quantas vezes os países ocidentais exigiram a repetição de eleições não em seus próprios Estados, nem mesmo em um que faça parte de alguma associação com eles, mas simplesmente porque os resultados da votação não lhes agradaram”.

Assine nossa newsletter e receba este e outros conteúdos direto no seu e-mail.

Na opinião de Zajarova, a atual escalada de tensão em torno da Venezuela “está criando uma ameaça à segurança regional e global”.

Em 29 de agosto, a porta-voz da chancelaria russa também não mencionou os Estados Unidos após Trump ordenar o deslocamento de navios de guerra para as costas da Venezuela. Porém, destacou: “A Rússia rejeita firmemente a ameaça de uso da força contra Estados soberanos como instrumento de política externa e se solidariza com o povo e o governo da República Bolivariana da Venezuela, que têm o direito inalienável de decidir livremente seu destino político, econômico e social sem ingerências externas”.

Na ocasião, Zakharova reiterou que a Rússia está interessada no desenvolvimento estável e independente da América Latina. “Esperamos que os países latino-americanos – cuja região foi proclamada zona de paz por seus governantes na cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) em 2014 – possam viver e prosperar sem conflitos nem intervenções armadas”.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *