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Após 20 anos de encarceramento em massa no Paraguai, Penã aposta errado em “método Bukele”

Reclusos enfileirados, agachados com as mãos atadas, vestidos com uniformes totalmente amarelos ou sendo transferidos encapuzados para que não possam ver: essas foram as imagens divulgadas pelo Governo do Paraguai e que evocam algumas das medidas implementadas pelo presidente Nayib Bukele em El Salvador. Isso faz parte do que a gestão de Santiago Peña considera uma “transformação do sistema penitenciário nacional” rumo a “um modelo mais controlado e seguro”.

Nos primeiros dias de agosto, o Ministério da Justiça paraguaio ordenou a transferência de 783 pessoas privadas de liberdade de diferentes presídios para a unidade de Minga Guazú, um estabelecimento penitenciário com capacidade para 1.300 pessoas, inaugurado em 2024 no departamento de Alto Paraná, a cerca de 20 km de Ciudad del Este e da Tríplice Fronteira com Brasil e Argentina.

“Não se trata apenas de transferir presos. Trata-se de recuperar a autoridade do Estado, garantir a segurança cidadã e acabar com os privilégios dentro das prisões, afirmou Peña em uma mensagem divulgada em suas redes sociais, na qual assegurou que essa nova política carcerária continuará e que “não há volta”.

Con el Operativo Umbral damos un paso decisivo en la transformación del sistema penitenciario del Paraguay.

Cada detalle fue planificado con responsabilidad. Este operativo es el comienzo de una reforma profunda y sostenida para recuperar el control, imponer orden y garantizar… pic.twitter.com/TYyjYfr2qi

— Santiago Peña (@SantiPenap) August 6, 2025

Na mesma publicação, o mandatário afirmou que a operação “foi planejada, executada com ordem e sempre dentro do marco da lei dos direitos humanos”.

“O sistema penitenciário cresceu de maneira impressionante”

Jorge Rolón, advogado, ex-diretor do Observatório de Segurança Cidadã do Ministério do Interior e ex-comissionado do Mecanismo de Prevenção da Tortura no Paraguai, disse à Sputnik que o país latino-americano se caracterizava por ter uma população carcerária quase “insignificante” até o início do século 21, quando passou a “encarcerar pessoas massivamente”.

Até os anos 2000, o Paraguai tinha pouco mais de 3 mil pessoas presas. Hoje, em agosto de 2025, tem cerca de 19,8 mil. Isso mostra que, quantitativamente, o sistema penitenciário cresceu de maneira impressionante, o que significa que está cada vez mais difícil de administrar.Jorge Rolón

Rolón afirmou que, ao crescente número de pessoas privadas de liberdade, somou-se outro fenômeno intensificado a partir de 2010: a presença de organizações criminosas dentro dos próprios estabelecimentos penitenciários, como os conhecidos “Comando Vermelho” e o “Primeiro Comando da Capital (PCC)”, originados no Brasil, mas com presença nas prisões paraguaias.

O analista, estudioso do sistema penitenciário paraguaio, considera que, atualmente, o Paraguai vive uma “tempestade perfeita”, que combina o superencarceramento, a atuação de grupos organizados desde os presídios e o efeito da corrupção, que faz com que o Estado “ceda o controle” de muitas prisões por interesses econômicos.

🚨 Operativo Umbral, éxito del Gobierno

El mayor traslado penitenciario en años: 783 personas privadas de libertad fueron trasladadas a Minga Guazú, bajo estrictos protocolos de seguridad.

🗣️ Ministro Rodrigo Nicora: “Minga Guazú alberga hoy a 889 personas condenadas, lo que se… pic.twitter.com/FINIvyMteg

— Ministerio de Justicia (@MJusticiaPy) August 8, 2025

Um “método Bukele”?

Nesse contexto, observou Rolón, o governo de Santiago Peña busca mostrar à população “que está fazendo algo para retomar o controle das prisões”, apostando no que o analista chamou de “uma encenação 100% bukeliana”.

O especialista afirmou que tanto o uso de uniformes pelos reclusos quanto a formação de presos “algemados e sentados no chão” fazem parte de uma mensagem comunicacional “que não se via antes” no Paraguai e que “parece copiada” do que costuma ser visto no país centro-americano.

Também consultado pela Sputnik, o advogado e analista político Leonardo Gómez Berniga afirmou que o presidente Peña buscou, desde sua chegada ao governo em 2023, “alinhar-se ao estilo de política de Bukele”, colocando o combate ao crime organizado no centro de sua narrativa política, inclusive com “produções audiovisuais centradas em sua figura” e campanhas a seu favor nas redes sociais.

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Para Gómez Berniga, Santiago Peña busca adotar alguns elementos como “relativizar as narrativas dos direitos humanos” ou construir uma política que “tende à concentração de poder e à redução das dissidências”.

O analista considerou, de todo modo, que a aposta política de Peña se sustenta no fato de que, efetivamente, “a criminalidade no Paraguai está crescendo”.

Não podemos ignorar que, nos últimos anos, a criminalidade chegou a territórios mais urbanos e populares e que o problema do ‘chespi’ ou crack está gerando um impacto muito grave nos territórios.Gómez Berniga

Gómez Berniga afirmou que Peña conseguiu colocar esse tema como “um elemento discursivo” de sua campanha e se valeu do crescente problema do crime organizado como elemento “para legitimar compras milionárias” destinadas a melhorar a segurança, embora alguns especialistas em segurança alertem que se trata de “elementos de propaganda sem análises efetivas por trás de sua implementação”.

De fato, Rolón não se mostrou otimista em relação à possibilidade de que as transferências massivas para Minga Guazú assegurem um melhor funcionamento do sistema penitenciário. Para o especialista, haverá um efeito inicial de “aliviar as condições de confinamento” nos demais presídios, mas possivelmente se retornará ao mesmo ponto mais adiante.

Na última década, tem ocorrido que novas prisões são construídas e, em pouco tempo, ficam cheias. Ou, quando se tenta construir prisões diferenciadas, seja de segurança máxima ou de outro tipo, logo se desvirtuam diante das necessidades de encarceramento provocadas pelo aumento da criminalidade ou pela forma descontrolada com que os juízes ordenam prisões preventivas.Jorge Rolón

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