A verdadeira democracia é aquela que reconhece os saberes, as lutas e os corpos historicamente silenciados; nesse sentido, o Brasil tem muito mais a ensinar do que a aprender com Trump
A declaração de Donald Trump, feita em tom de aparente cortesia — “Ele pode falar comigo quando quiser” — diz mais sobre o próprio presidente estadunidense do que sobre qualquer gesto diplomático real. Na verdade, é apenas mais um capítulo da retórica que transforma relações internacionais em espetáculo e ego inflado. Um gesto performático que busca “amenizar” após, novamente, reafirmar o papel de “xerife do mundo” que os EUA ainda insistem em representar, mesmo quando personificados por líderes que atentam contra sua própria democracia.
Para o Brasil, não é só uma questão de protocolo. É uma questão de projeto civilizatório. O país que, com todas as suas contradições internas, ensaia caminhos de reconstrução democrática e reafirmação de políticas externas soberanas, precisa compreender que figuras como Trump não são apenas adversárias ideológicas: representam ameaças concretas à autodeterminação dos povos, especialmente os do Sul Global.
A retórica que Trump representa — e que já foi abraçada por boa parte da extrema-direita brasileira no período recente — não é ingênua. É violenta. Fomenta golpes, dissemina ódio racial, sexual e religioso, e mercantiliza o planeta em nome de um progresso que mata. Enquanto isso, os países latino-americanos, africanos e caribenhos seguem sendo os corpos sacrificáveis dessa engrenagem.
Confira mais análises sobre as tarifas de Trump contra o Brasil.
O Sul Global, por sua vez, vem apontando alternativas. Um exemplo foi a resposta de Gustavo Petro a Trump em janeiro deste ano: o presidente colombiano suspendeu a aterrissagem de voos militares estadunidenses com colombianos deportados devido a preocupações com a dignidade e os direitos humanos. Não se tratava apenas de uma defesa da dignidade da pessoa humana. Era uma afirmação de soberania. Um gesto que rompeu o ciclo de subserviência que por décadas contaminou as relações exteriores dos países latino-americanos.
No caso brasileiro, coube ao governo Lula se posicionar à altura da história que estamos atravessando. Falar com Trump demanda a consciência de que não estamos lidando com um chefe de Estado qualquer, mas com um mandatário que flerta abertamente com o autoritarismo e representa um projeto de mundo incompatível com qualquer horizonte de justiça climática, racial e social.
Soberania, diplomacia e a resposta de Petro a Trump: quais as lições para o Brasil?
É preciso ter clareza sobre os riscos que a ascensão da extrema-direita global representa para a democracia e para o futuro do planeta. O Brasil, com sua tradição diplomática e seu compromisso com a justiça social e ambiental, tem um papel fundamental a desempenhar nesse cenário. Não se trata de demonizar Trump ou qualquer outro líder, mas de defender os valores e princípios que orientam a nossa política externa e a nossa visão de mundo. Um diálogo crítico e propositivo, baseado no respeito mútuo e na busca por soluções comuns para os desafios globais, é o caminho para construir um futuro mais justo e sustentável para todos.
As epistemologias do Sul, como bem nos ensina Boaventura de Sousa Santos, nos oferecem ferramentas para desconstruir essa pretensa universalidade do Norte. É preciso rejeitar a ideia de que a democracia só é válida quando moldada ao gosto do Ocidente. A verdadeira democracia é aquela que reconhece os saberes, as lutas e os corpos historicamente silenciados. E nesse sentido, o Brasil – com suas experiências populares, seus quilombos, terreiros e favelas que resistem – tem muito mais a ensinar do que a aprender com figuras como Donald Trump.
Assine nossa newsletter e receba este e outros conteúdos direto no seu e-mail.
O diálogo que importa, neste momento, é entre os povos do Sul. Entre os que compartilham histórias de colonialismo, mas também de resistência. Que constroem alternativas econômicas, sociais e de linguagem a partir de outras matrizes epistêmicas. E que não aceitam mais serem governados pelo medo, pela violência e pela ignorância disfarçada de poder.
Se Trump quiser falar, que ouça primeiro. Que ouça as vozes que vêm das margens do mundo. Do Recôncavo Baiano ao planalto andino. Que ouça os cantos de luta das mulheres, a sabedoria ancestral dos povos originários, a esperança dos trabalhadores. Porque é dessas margens que pode surgir o centro de um novo mundo possível.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

