Apesar da forte e contínua pressão da mídia e das declarações contraditórias que buscam transmitir a imagem de um colapso, nenhuma das partes declarou explicitamente o fracasso das negociações em curso sobre o cessar-fogo em Gaza. O que circula até o momento não equivale a uma retirada formal do processo de negociação, sendo usado claramente como instrumento de pressão, dentro de uma tática calculada para melhorar os termos do acordo antes do momento decisivo.
Nem as declarações de Steve Witkoff, enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente, nem os discursos do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, trouxeram uma formulação clara de retirada definitiva. Pelo contrário, declarações israelenses divulgadas pelo canal “Kan” admitem que “as divergências com o Hamas não são muito grandes, e ainda é possível chegar a um acordo, talvez nos próximos dias”. Já o canal egípcio Cairo News relatou, com base em suas fontes, que as conversas devem ser retomadas na próxima semana, dependendo da resposta de Israel às alterações recentemente apresentadas pelo Hamas.
Hamas responde à escalada: estamos negociando com seriedade e criticamos a posição dos EUA
Em resposta direta ao que classificou como uma distorção deliberada do processo de negociação, o dirigente do Hamas, Taher Al-Nounou, afirmou que houve avanços significativos nas conversas e que o movimento respondeu de forma absolutamente positiva aos esforços dos mediadores. Ele esclareceu que a questão dos prisioneiros ainda não foi discutida, estando prevista para a próxima rodada de negociações.
Al-Nounou declarou ao canal Al Araby TV: “As negociações estavam avançando positivamente, e as declarações dos Estados Unidos são injustificadas… A posição estadunidense é surpreendente diante do grande progresso, especialmente em relação aos mapas de retirada israelense da Faixa de Gaza.”
As declarações de Al-Nounou foram uma resposta à mais recente escalada estadunidense, quando o presidente Donald Trump afirmou que o Hamas “não quer chegar a um acordo” e acrescentou: “Nos retiramos das negociações sobre Gaza, o que é lamentável. O Hamas deve ser perseguido e eliminado.”
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O ataque de Trump coincidiu com o anúncio de seu enviado, Witkoff, de retirada da equipe estadunidense de Doha, acusando o movimento de desorganização e má-fé, e declarando que Washington irá buscar “outras opções” para recuperar os reféns.
No entanto, a realidade no terreno e as próprias respostas israelenses revelam que as negociações não terminaram, mas continuam dentro de um jogo de nervos, conduzido por meio de escalada, pressão e estratégia midiática.
Os mapas são o cerne da batalha… e não os prisioneiros
As informações acumuladas indicam que a maior parte dos pontos do acordo já foi colocada sobre a mesa, restando apenas uma questão de detalhe – porém essencial: os mapas de posicionamento temporário das forças israelenses dentro da Faixa de Gaza.
Esse ponto, embora técnico, carrega implicações políticas e de segurança extremamente graves, pois Israel busca, por meio dele, impor fatos consumados no terreno que lhe garantam:
- A continuidade da presença militar: uma retirada total significaria o fim da guerra, o que é rejeitado por setores do governo israelense, como Ben Gvir e Smotrich.
- A implementação de um plano de deslocamento forçado: insistindo em permanecer em amplas áreas de Rafah para esvaziar o sul da Faixa.
- Uma carta de pressão negocial: cada metro sob ocupação representa um estrangulamento da mobilidade das pessoas e de sua vida cotidiana, impactando diretamente a configuração geográfica e demográfica do território.
Portanto, a ocupação não está negociando por segurança, mas por uma reengenharia da realidade em Gaza que favoreça seus planos de longo prazo.
A mídia como arma de negociação… e não como canal da verdade
As partes israelense e estadunidense estão usando os meios de comunicação como uma plataforma paralela de negociação. Entre o anúncio de “retirada para consultas” e a escalada retórica diante da mídia, se evidencia uma tática baseada em elevar as expectativas para então derrubá-las abruptamente, desorientando o lado palestino e influenciando sua base popular.
As declarações de Witkoff vieram logo após o Hamas apresentar novos mapas de posicionamento temporário, o que foi considerado pelos mediadores árabes como um passo importante e positivo. No entanto, rapidamente isso se transformou em um amplo ataque estadunidense, carente de coerência e lógica.
Conclusão: as negociações continuam… e a disputa é sobre o formato do desfecho
Não interessa a ninguém – nem à resistência, nem à ocupação, nem aos mediadores – declarar o fracasso das negociações agora. O que está ocorrendo é uma disputa sobre a forma, os limites, a natureza do acordo e a localização das forças, mais do que sobre o princípio em si.
Cada parte deseja um acordo que atenda às suas condições, e cada declaração é parte de um teatro de negociação que se dirige ao público interno e externo simultaneamente.
O paradoxo é que o esboço do acordo, praticamente finalizado, contém cláusulas fundamentais que ainda não foram anunciadas oficialmente, como:
- Um cessar-fogo de 60 dias com frágeis e incertas garantias estadunidenses.
- Entrada de ajuda humanitária por meio de um mecanismo que preserve a dignidade humana.
- Troca de prisioneiros a ser iniciada imediatamente após a assinatura.
- Definição de mapas de retirada e de posicionamento temporário dentro da Faixa.
Após os mapas: ou a consolidação de uma vitória política para Gaza… ou a legitimação de uma nova ocupação
Os próximos dias serão decisivos.
Se forem impostos os mapas da ocupação em Rafah e outras áreas, as negociações entrarão para a história como um acordo que oficializou a derrota no papel.
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Mas se a resistência mantiver sua posição firme, terá conquistado, por meio da negociação, uma vitória política que complementa a resistência do seu povo no campo de batalha.
No fim das contas, as negociações seguem… mas quem as conduz não busca justiça, e sim consolidar a dominação e maquiar a ocupação.

