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Brics: o novo mundo incomoda o decadente e velho mundo

Por algumas centenas de anos, os chamados periféricos, subdesenvolvidos, terceiro mundo — ou qualquer outra qualificação que possamos encontrar para nos subclassificar — foram reconhecidos como aqueles que sofrem as consequências de uma arquitetura global; que vivem na inércia da divisão internacional do trabalho ou da herança colonial, e não como os que ditariam, para sempre, o nosso futuro.

Hoje, mesmo com crises, dificuldades e disputas, os periféricos também ditam o futuro e o ritmo da nova organização mundial. A realidade é que a periferia do mundo nunca pôde definir seu próprio destino, tendo sua soberania e autonomia constantemente sabotadas. Imagine, então, o futuro da reorganização do planeta: todos os processos de colonização, exploração e imperialismo nunca foram pacíficos e, quando se trata da luta entre classes e poderes, nunca serão.

Entre otimistas e pessimistas, o fato é que o Brics representa, institucionalmente, essa reorganização — embora, inclusive, o próprio bloco esteja em disputa. Em paralelo à crise, a ascensão de novos polos sinaliza a emergência de um mundo multipolar, potencialmente mais equilibrado e democrático. Não necessariamente mais pacífico, mas mais complexo, dentro das perspectivas de equilíbrio de poder. Atualmente, nem mesmo o império ignora que o Brics será o principal instrumento de reorganização global, diante da queda agressiva do último hegemon — mais conhecido como Estados Unidos.

A Cúpula do Brics

A Cúpula dos Líderes do Brics ocorreu em 6 e 7 de julho de 2025, no Rio de Janeiro — um momento decisivo para afirmar o protagonismo do Brasil na construção de uma nova geopolítica global. Podemos interpretar como positivos os resultados da cúpula, destacando a forte atuação do presidente Lula. Positivos, não pela superação dos problemas internos do bloco, nem mesmo por avanços institucionais significativos, mas pelos efeitos políticos que se expressam na atual correlação de forças no complexo cenário internacional.

É necessário compreender que o Brics se encontra em uma fase de construção — e, ainda mais, de ampliação — em um contexto de crises políticas, econômicas e bélicas que afetam seus respectivos membros. A expansão do grupo exige tempo, maturação, diálogo e política — muita política. Atualmente, o bloco é composto por onze países-membros: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

O Brics tem se consolidado como uma aliança estratégica do Sul Global, com o objetivo de reequilibrar a ordem internacional, desafiando a hegemonia do dólar e a centralidade das instituições financeiras ocidentais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. No campo da economia e do comércio, há um debate técnico avançado, que corresponde a mudanças estruturais — como a desdolarização e a utilização de moedas do próprio Brics nas trocas comerciais entre seus membros.

11ª Cúpula de Juventude do Brics: Brasil fortalece cooperação do Sul Global para um futuro sustentável

O bloco busca conduzir o Sul Global a se tornar uma aliança geopolítica fundamental na transição para uma nova ordem internacional — mais equilibrada, pacífica, multipolar e igualitária. Observa-se uma acelerada transformação no cenário geopolítico, tensionada pela redefinição das dinâmicas de poder. O discurso pautado no “fim da história”, propagado pelas economias liberais ocidentais, tem sido profundamente contestado pelo avanço do Sul Global — com destaque para a China e os demais países que compõem o Brics.

A presidência rotativa do Brics foi oficialmente marcada pelo lema: Fortalecendo a Cooperação do Sul Global por uma Governança mais Inclusiva e Sustentável. A agenda do Brasil foi organizada em dois principais eixos: a cooperação do Sul Global e as parcerias do Brics para o desenvolvimento social, econômico e ambiental.

Um dos pilares dessa estratégia é o fortalecimento de instrumentos financeiros próprios, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que oferece alternativas concretas de financiamento ao desenvolvimento. O grande debate repassado da presidência russa do Brics ao Brasil é a desdolarização das trocas comerciais — e até mesmo a criação de uma moeda própria do Brics: uma saída política e pragmática para a guerra tarifária e as sanções econômicas impostas pelo Ocidente liberal. A presidenta do Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, defendeu com firmeza a ampliação do uso de moedas locais nos financiamentos realizados pela instituição criada pelo Brics — e não a criação de uma moeda única. Ela exemplificou que a superação da hegemonia do dólar não se dá, necessariamente, por sua substituição, mas sim pela diversificação das trocas monetárias. Dilma anunciou que cerca de 25% das operações já são feitas em moedas locais, e que a meta de 30% até 2026 está próxima de ser alcançada (Vermelho, 2025). Como etapa inicial da desdolarização, é fundamental criar reservas em moedas locais e estimular seu uso nas transações comerciais. Trata-se de um passo estratégico na transformação da arquitetura financeira global, articulado principalmente por países do Sul Global, em resposta aos riscos geopolíticos e às assimetrias históricas da ordem econômica internacional.

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Outro movimento estratégico é o fortalecimento da ciência no bloco como vetor de soberania, desenvolvimento econômico e justiça social. Avançar no fortalecimento de sistemas científicos públicos e soberanos — bem como no aprofundamento do financiamento de iniciativas como o Brics NU e o Fórum de Reitores do Brics+ — é essencial. A questão energética também foi pautada como tema estratégico, articulando transição energética, sustentabilidade, desenvolvimento e Amazônia. Destacamos a energia como vetor estratégico e soberano na atual disputa do mundo multipolar. O Brics deve ocupar, neste momento de crise, um espaço de formulação e cooperação em políticas públicas conjuntas nos campos da ciência, tecnologia, inovação e energia — setores fundamentais para a reindustrialização, a geração de empregos qualificados e a construção de um projeto nacional de desenvolvimento.

Política externa brasileira

Em um momento de disputa por influência sobre o Brasil e a América Latina, a política externa brasileira frequentemente aposta em uma estratégia ampla de não alinhamento total a nenhum dos polos, adotando, por vezes, um posicionamento pendular. Diante da escalada dos tensionamentos — principalmente sob ataques dos Estados Unidos, com tarifas contra o Brasil, crise migratória e diversas infrações aos direitos humanos — não há espaço para abstrações ou políticas esvaziadas de conteúdo.

“Movimento audacioso”: aliança Colômbia-Brics é divisor de águas para o Sul Global

O ataque de Donald Trump ao Brasil, com a imposição de tarifas de 50%, foi divulgado por meio de uma carta propagada por fake news, alegando que a motivação seria política — uma resposta à suposta “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Intervenções norte-americanas não são novidade; no entanto, neste momento, elas ultrapassam a esfera da política de Estado e assumem uma dimensão ideológica. Essa linha ideológica, no fundo, funciona como alegoria de uma intenção mais profunda: pressionar, sobretaxar e desarticular os países que se reorganizam em torno do Brics, da desdolarização e da atuação como novos articuladores do cenário global — o Sul Global.

Essas tarifas não decorrem de uma oposição por violações dos direitos humanos ou da Carta das Nações Unidas, mas sim da reivindicação de princípios próprios, como autonomia, soberania e autodeterminação. Atualmente, assistimos a uma inflexão paradigmática caótica, na qual a ordem liberal instaurada após 1945 — fundamentada na hegemonia estadunidense e sustentada por instituições multilaterais — entra em colapso. Vivemos uma crise estrutural, ironicamente provocada por seus próprios fundamentos e interesses. Essa crise manifesta-se na fragmentação e desarticulação da governança global, na escalada de conflitos bélicos, em intervenções e ocupações, bem como no recrudescimento de práticas imperialistas. Trata-se de respostas da ordem global à erosão da hegemonia unipolar dos Estados Unidos, cuja decadência aproxima a possibilidade de uma escalada das tensões bélicas em escala mundial.

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Nesse contexto, a busca dos países periféricos por medidas de resistência econômica — como a imposição de tarifas elevadas — constitui uma tentativa de reafirmar autonomias e princípios de desenvolvimento justos, desafiando as estruturas de poder que sustentam o atual sistema. Vivemos um tempo em que soberania, desenvolvimento e justiça social se tornam bandeiras comuns de nações que rejeitam a tutela das potências tradicionais. É por meio do conhecimento e da cooperação que construiremos um Brasil protagonista e autônomo — não apenas em seu território, mas também no cenário internacional.

Em um cenário de transição geopolítica e rearranjo das forças globais, o Brasil deve reafirmar seu lugar ao lado do Sul Global. Não há soberania possível sem integração com os países que compartilham os mesmos desafios históricos de desigualdade, dependência e subordinação. Não existe Brasil fora de um mundo multipolar, e não há futuro viável que não passe pela cooperação entre os povos do Sul. O Brasil tem futuro — e ele será compartilhado com o Sul Global. Hoje, não há mais espaço para uma política pendular: devemos assumir o papel de protagonistas na construção do novo mundo multipolar. No entanto, para além da agenda diplomática do bloco, o Brics deve representar uma leitura política e civilizatória em um mundo marcado por colapsos e crises.

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