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108 anos de Indira Ghandi: o legado de uma vida pela justiça social na Índia e no mundo

Indira Ghandi, uma figura emblemática na história da Índia, deixou marcas indeléveis no âmbito social e político, tanto a nível nacional como internacional. Sua vida e governo foram testemunhas de momentos cruciais que moldaram o destino da nação e sua influência se estendeu além das fronteiras da Índia.

Nascida em 19 de novembro de 1917, Indira Priyadarshini Gandhi foi a única filha de Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro da Índia independente, de quem herdou, além da sabedoria e da coragem, o compromisso político e de justiça social com seu país e com o resto do mundo, assim como a amizade com Cuba e com seu líder histórico Fidel Castro.

Sinônimo de luta desde cedo

Contam que alguns membros da família ficaram decepcionados com o nascimento de uma menina; no entanto, o pai orgulhoso notou a coincidência única de um dos maiores acontecimentos históricos relacionados com a chegada de sua filha: o começo da Revolução Russa.

Quando Indira tinha apenas dois anos de idade, seus pais se uniram ao Movimento de Independência da Índia com Mohandas K. Gandhi (Mahatma Gandhi) e a casa dos Nehru era frequentemente um lugar de reunião para os envolvidos.

Com 12 anos, criou um movimento para meninas e meninos pequenos, que desempenhou um papel notável no Movimento de Independência da Índia, pois atuaram como mensageiros de informações importantes para a causa.

Depois do falecimento de seu avô, Motilal Nehru, em 1931, foi transferida para Poona, em Maharashtra, onde foi testemunha da manifestação na prisão de Yervada de Mahatma Gandhi para a proteção dos harijans, comumente conhecidos como dalits, que integram a classe mais baixa da religião hindu, vítimas durante muitos anos de discriminação, vexames e injustiças.

Foto: Reprodução

De 1934 a 1935, estudou em Shantiniketan, Bengala Ocidental, hoje Patrimônio da Humanidade pela Unesco, onde conheceu o poeta e escritor Rabindranath Tagore, Prêmio Nobel de Literatura, cujos versos a fascinaram.

Em 1936, depois da morte de sua mãe, foi estudar na Inglaterra, onde esteve muito envolvida em atividades políticas, como o boicote de produtos japoneses em Oxford quando o Japão atacou a China, tendo leiloado uma de suas pulseiras para a causa republicana durante a Guerra Civil espanhola.

Primeira-ministra

Depois de assumir vários cargos como membro do partido do Congresso Nacional Hindu e de ser ministra de Informação e Radiodifusão de 1964 a 1966, Indira Gandhi foi eleita primeira-ministra ao receber a maior quantidade de votos nas eleições de 19 de janeiro de 1966, responsabilidade que assumiu de 1966 a 1977 e, posteriormente, de 1980 até seu assassinato, em 1984.

Com outros cargos sob sua responsabilidade, como ministra de Energia Atômica desde setembro de 1967 até março de 1977, de Assuntos Exteriores desde 1967 até 1969, do Interior desde 1970 até 1973, foi a segunda chefe de Governo da Índia com mais anos no cargo, depois de Jawaharlal Nehru.

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As conquistas sob a liderança de Indira Gandhi foram verdadeiramente extraordinárias no que diz respeito a lograr autossuficiência e garantir justiça social. Como primeira-ministra, continuou o legado de Nehru no planejamento econômico e se comprometeu a conquistar a autonomia do país em setores cruciais, como os cereais, a defesa e a tecnologia. Graças às medidas que adotou, a economia hindu ficou isolada de questões internacionais adversas, como a crise do petróleo.

Também trabalhou para reduzir a inflação a um nível razoavelmente baixo, tanto em meados dos anos 1970 como no princípio de 1980. A produção nacional de petróleo cru aumentou substancialmente durante este período. Seguiu uma política de desenvolvimento da pesquisa científica no país mediante o fortalecimento de vários laboratórios e instituições científicas, aumentando o financiamento. Já a segunda fase de reformas agrárias, empreendida no princípio dos anos 1970, modificou o panorama da Índia rural ao impedir a concentração da terra em poucas mãos e redistribuí-la a famílias necessitadas.

Processo de nacionalização, Revolução Verde e mais

O Governo da Índia, sob a liderança de Indira Gandhi, em 1969 nacionalizou os 14 maiores bancos comerciais, que controlavam 70% dos depósitos da Índia; e em 1980 passaram às mãos do Estado mais seis instituições bancárias.

Este processo levou à canalização do crédito para a agricultura e as pequenas e médias indústrias, ajudou a aumentar a poupança das famílias, proporcionou investimentos consideráveis no setor informal, nas pequenas e médias empresas e na agricultura. Contribuiu significativamente, ainda, para o desenvolvimento regional e a expansão da base industrial e agrícola da Índia.

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Em 1973, estendeu a medida às companhias petroleiras privadas de propriedade estrangeira, entre as quais passaram às mãos do Estado: Indian Oil Corporation (IOC), Hindustan Petroleum Corporation (HPCL) e Bharat Petroleum Corporation (BPCL).

Uma das peças importantes do programa de Indira em meados e final dos anos 60 foi a Revolução Verde, para dar continuidade à reforma agrícola do mandato de Jawaharlal Nehru. Como chefe de Governo, deixou sua marca com iniciativas como a introdução de variedades híbridas de alto rendimento de sementes de trigo e arroz, o início de subsídios estatais, o fornecimento de energia elétrica, água, fertilizantes e crédito aos agricultores. Também isentou de impostos a renda agrícola.

Durante seu mandato na década de 1980, a Índia buscou reafirmar seu papel no Movimento de Países Não Alinhados (Mnoal), com ênfase no desenvolvimento econômico e, ao abordar os problemas neste campo pelo mundo em desenvolvimento, exerceu influência no grupo. (Foto: Warren K. Leffler)

O financiamento institucional oferecido à agricultura duplicou entre 1968 e 1973 e foi posto à disposição de investimento público, crédito institucional, preços remunerativos e disponibilidade da nova tecnologia a preços baixos. Os resultados desta nova estratégia puderam ser vistos em pouco tempo com o aumento da disponibilidade de alimentos e da produção de cereais, e a diminuição das importações líquidas de produtos alimentícios. Nos anos 1980, a Índia não só era autossuficiente em matéria alimentar, com reservas de mais de 30 milhões de toneladas, como também exportava para pagar seus empréstimos e ajudar países com déficit de alimentos.

Com ela à frente do país, o trabalho no programa nuclear iniciado no governo de Jawaharlal Nehru foi retomado com renovado vigor e foi impulsionada a política destinada a modernizar a economia por meio da atualização científica e tecnológica, com a criação e o fortalecimento de vários laboratórios e instituições científicas. Começou uma revolução nas comunicações no país mediante o alcance da rede de televisão, adotando a estratégia de substituição de importações para a tecnologia com a intenção de estimular e proteger as atividades nacionais de pesquisa e desenvolvimento.

Missão espacial e luta contra a pobreza

Em 1968, Indira Gandhi inaugurou a Estação de Lançamento de Foguetes Equatoriais Thumba. O local era destinado à pesquisa das Nações Unidas e da própria Organização de Pesquisa Espacial da Índia (ISRO), instaurada no Dia da Independência em 1969 e que passou a depender do Departamento do Espaço.

Consciente das persistentes desigualdades no país, empreendeu o programa Garibi Hatao (Eliminar a pobreza) e trabalhou para promover com especial cuidado os interesses educativos, trabalhistas e econômicos dos setores mais frágeis do povo. Também contemplou medidas como o confisco de propriedades de contrabandistas e o estabelecimento de limites para a propriedade e a distribuição das terras excedentes entre os pobres rurais. Seu programa de 20 pontos incluiu medidas para reduzir os preços dos produtos básicos, promover a austeridade nos gastos públicos, acabar com o trabalho em servidão e liquidar a dívida rural.

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Durante seu mandato na década de 1980, a Índia buscou reafirmar seu papel no Movimento de Países Não Alinhados (Mnoal), com ênfase no desenvolvimento econômico e, ao abordar os problemas neste campo pelo mundo em desenvolvimento, exerceu influência no grupo. Na cúpula da entidade, realizada em Delhi em 1983, o líder histórico da Revolução cubana, Fidel Castro, entregou-lhe a presidência do grupo, e ela impulsionou a imagem da Índia no movimento.

Morte trágica

Sua morte em 31 de outubro de 1984, nas mãos de um dos guarda-costas, ocorreu só cinco meses após uma operação militar para expulsar militantes sikhs do Complexo do Templo Dourado em Amritsara. Não obstante sua trágica morte e as sombrias circunstâncias que a cercaram, Indira Gandhi é reconhecida hoje como uma das personalidades mais admiradas na Índia e no mundo, sendo lembrada por sua forte liderança e suas importantes contribuições ao desenvolvimento do país.

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